
Pipa Rodrigues, central e capitã do Estoril
No início, os pais de Pipa Rodrigues, capitã do Estoril, não entendiam a paixão da central pelo futebol. Agora ficam "muito babados" e acompanham-na "para todo o lado". "A mentalidade numa aldeia é muito diferente", vincou
Filipa Rodrigues, mais conhecida por Pipa, é a capitã do Estoril, formação da zona sul da Liga BPI. Num ano de "reconstrução da equipa", partilha o balneário com jogadoras que treinou nas camadas jovens do clube. Trabalha numa loja de desporto e ainda arranja tempo para treinar as sub-17.
A central habituou-se desde cedo a ser apelidada de "maria-rapaz" por estar sempre a jogar à bola
Em que altura surgiu esta paixão pelo futebol?
- A minha infância foi sempre atrás de uma bola. Nunca quis brincar com bonecas, nem queria brincar com raparigas. Costumo dizer que já saí da barriga da minha mãe a dar pontapés. Mas foi muito complicado, porque os meus pais eram contra. A opinião deles mudou a partir do momento que entrei para o futebol feminino, com cerca de 14 ou 15 anos. Passaram a ser uns pais babados, e acompanham-me para todo o lado.
"Vivia numa aldeia, não sabia que existia futebol feminino"
Acredita que essa falta de compreensão era por acharem que é um desporto para rapazes?
- Exatamente, porque vivia numa aldeia de Mangualde e eu própria não sabia que existia futebol feminino. Não se falava tanto como se fala hoje em dia. Vivia numa aldeia do interior, onde a mentalidade era diferente; andava na rua a jogar com os meus colegas e toda a gente me chamava "maria-rapaz". Nessa altura, mandava calar as pessoas [risos]. A partir do momento que entrei para o futebol feminino e comecei a ter sucesso, passei a ter a aldeia toda comigo.
Antes de ingressar no futebol feminino, como é que fazia para jogar?
- Antes de entrar para o feminino, para jogar, tinha de fugir e de me esconder. Às vezes os meus pais lá me deixavam ir, mas em muitos momentos tinha mesmo de ir às escondidas. Dizia: "Vou ali ao clube ver os meus amigos jogar". Não era verdade; queria era ir jogar com eles. Lembro-me perfeitamente de estar a jogar e quando via os meus pais a aproximarem-se ia a correr para a bancada, numa de tentativa de disfarçar, mas não dava, porque estava transpirada. Eles não sabiam que existiam mais meninas a jogar, agora consigo compreendê-los, na altura, se calhar, não os compreendia tão facilmente.
A Fundação Laura Santos foi o primeiro clube da carreira, como foi essa experiência?
- Comecei logo a jogar com atletas mais velhas, porque não havia formação. Na altura, não tinha tanta noção de quem elas eram, mas lembro-me de partilhar o balneário com a Ana Borges e a Sílvia Rebelo, por exemplo. Outra coisa que não sabia, e não fazia ideia sequer que existia, era Seleção Nacional. A primeira vez que a professora Susana Cova me viu jogar veio ter comigo. Perguntei quem era e até cheguei a fugir, porque não a conhecia e estava com muita vergonha. "A senhora quer falar comigo, mas quem é a senhora?!", pensei [risos].
"A minha infância foi sempre atrás de uma bola. Nunca quis brincar com bonecas, nem com as raparigas. Costumo dizer que saí da barriga da minha mãe a dar pontapés"
O primeiro contacto com o futebol foi enriquecedor?
- Foi ótimo, costumo dizer que foi a Fundação Laura Santos que me deu as bases todas. Foi lá que souberam quem era a Filipa e que a Filipa começou a saber o que era o futebol feminino.
Conta também com uma passagem pelo Benfica...
- O Benfica foi o realizar do maior sonho que tinha. Sou benfiquista ferrenha, as minhas amigas até dizem que sou doente. Foi o topo dos topos. Estive só um ano, mas foi muito bom. Até dezembro costumava jogar, era titular, depois chegaram outras jogadoras e passei a não jogar tanto, mas não foi por isso que deixou de ser uma experiência boa, porque foi.
Já pelo Estoril é a segunda passagem, como está a ser a experiência?
- Este ano está a ser completamente diferente, está a ser a reconstrução da equipa. Há meninas que nunca tinham tido experiência de Liga BPI e, parecendo que não, um campeonato de juniores não tem nada a ver com a Liga BPI. Elas estão a aprender. Neste momento, para nós, é muito complicado, mas que vão ter de levar com o Estoril até ao fim, vão! Há jogadoras que estão a jogar comigo este ano e que treinei há dois anos. Tem sido muito interessante, porque quando fui treinadora delas disse que tinha ali jogadoras com todas as qualidades para chegar à equipa sénior. Agora, vê-las lá comigo é muito bom.
"Este ano está a ser diferente, está a ser de reconstrução total da equipa. Treinei algumas delas há dois anos"
No Estoril, além de jogar, também é treinadora...
- Sim, comecei por ser treinadora dos escalões masculinos, agora sou treinadora adjunta das sub-17.
Joga, dá treino e, pelo que sei, também trabalha. Como concilia tudo?
- É uma boa pergunta. Neste momento, não vejo o futebol como via há uns anos. Atualmente, trabalho, dou treinos e jogo futebol no Estoril à noite. Trabalho numa loja desportiva e estou lá há quase três anos. Quando saí do Benfica, decidi procurar outro trabalho. O ordenado no Estoril não é igual ao do Benfica. Trabalho lá até às 18h00, às 18h30 tenho ginásio, às 19h15 dou treino, às 20h30 tenho treino e chego a casa às 23h. Normalmente é isto: acordar, trabalhar e depois ir para o campo de futebol e estar lá até à noite. O mais difícil é estar longe de casa, porque sou uma pessoa muito ligada à minha família. Neste momento, estou quase há dois meses sem os visitar, e isso é muito complicado.
