Após quatro épocas, trocou Portugal pelos Estados Unidos: "Torna-se muito difícil dizer que não"

Mylena Freitas
D.R.
A Liga BPI foi escola e casa de Mylena Freitas. Aos 25 anos, a brasileira decidiu arriscar numa realidade totalmente diferente. A O JOGO, a internacional jovem canarinha, que representa o Brooklyn FC, da USL, explica que era tempo de sair da zona de conforto e fala da experiência no Estados Unidos da América.
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Durante quatro épocas, Mylena Freitas fez da Liga BPI a sua casa. Primeiro no Famalicão, onde conquistou uma Taça de Portugal, e depois no Braga, clube que representou na última temporada. Aos 25 anos, a avançada brasileira sentiu que o conforto já não bastava. Era tempo de arriscar, de sair da realidade portuguesa e medir-se com um futebol que está vários passos à frente. A mudança levou-a para os Estados Unidos, ao Brooklyn FC, num campeonato onde a intensidade e o profissionalismo colocam o futebol feminino noutro patamar.
Depois de quatro épocas em Portugal, o que a levou a sentir que era o momento certo para trocar o Braga pelo Brooklyn, da USL?
-Pesou muito a vontade de desafiar-me. Estava confortável em Portugal, mas se ficasse mais tempo podia entrar naquela zona de conforto que não ajuda a crescer. Sempre tive curiosidade pelo futebol nos Estados Unidos, pela forma como o jogo é vivido lá, e quando surgiu esta possibilidade senti que era agora ou nunca. Foi uma decisão pensada, mas tomada com o coração muito tranquilo.
Que balanço faz destes anos vividos em Portugal?
-O balanço é extremamente positivo e foram anos muito marcantes para mim. Cheguei com 18 anos, era a minha primeira experiência fora do Brasil, e Portugal ajudou-me a crescer rapidamente. Aprendi a viver sozinha, a lidar com responsabilidades e a adaptar-me a uma nova cultura. São aprendizagens que levo para a vida.
O que significou representar clubes como o Braga e o Famalicão?
-Foram experiências muito especiais. O Braga marcou-me bastante; foi uma sensação única vestir aquela camisola. Se pudesse voltar, voltaria sem hesitar. O Famalicão também guardo com enorme carinho. Foi o clube que me acolheu desde o início, onde vivi momentos muito felizes e conquistei a Taça de Portugal.
Olhando para o futebol feminino em Portugal, sente que ainda há promessas que ficam mais no papel do que na prática?
-Houve uma evolução enorme. Comparando 2018 com 2025, as diferenças são claras, sobretudo em termos de condições e estruturas. Ainda há caminho a percorrer, mas o crescimento é evidente.
Sentia que o seu percurso em Portugal estava completo ou apareceu um desafio impossível de recusar?
-Não sinto que o ciclo esteja fechado. Portugal é uma casa para mim e será sempre um "até já", nunca um adeus. Mas também senti que já tinha vivido muito ali, que tinha aprendido bastante e que estava preparada para outro contexto. Quando surge uma oportunidade destas, num campeonato tão forte e estruturado, torna-se muito difícil dizer que não.
Antes de se mudar, que ideia tinha do futebol feminino nos Estados Unidos?
-Tinha uma ideia muito geral, mas pouco concreta. Sabia que era uma das referências mundiais, mas não conhecia o dia a dia, a exigência real nem o ambiente competitivo. Vim de mente muito aberta, preparada para aprender.
A adaptação à nova realidade foi tão exigente quanto imaginava?
-Dentro de campo foi bastante exigente. O ritmo é muito alto, as jogadoras são fisicamente muito fortes e rápidas, e o jogo é quase sempre intenso do primeiro ao último minuto. Tive de me adaptar a essa realidade. Fora de campo, existe, naturalmente, um choque cultural, mas faz parte do crescimento pessoal. São experiências que nos tornam mais completas.
No Brooklyn, o que mais a surpreendeu ao nível das condições e do profissionalismo?
-O cuidado com a jogadora. Desde o primeiro contacto senti que tudo era muito bem organizado e planeado. Há uma preocupação real com a adaptação, com o bem-estar e com os detalhes do dia a dia. Isso dá-nos tranquilidade para nos focarmos apenas em jogar e render dentro de campo.
A diferença salarial e contratual entre os Estados Unidos e Portugal sente-se assim tanto?
-Depende muito do clube em Portugal, mas a diferença existe. Nos Estados Unidos tudo é mais estruturado. Ainda assim, Portugal está num caminho de crescimento consistente, o que é importante para o futuro da modalidade.
Este passo pode ser determinante para atingir outros patamares no futebol feminino?
-Acredito que sim. É um passo importante e mostra que o futebol feminino está a criar cada vez mais oportunidades. Estar num campeonato forte e competitivo dá visibilidade e permite-nos evoluir. Agora cabe-me a mim aproveitar este momento.
Encarou esta mudança como um projeto a longo prazo?
-Estou muito feliz aqui e focada neste desafio, mas no futebol tudo pode mudar rapidamente. Fazemos planos, mas muitas vezes é a vida que decide. O importante é viver o presente e dar o máximo.
A seleção A brasileira continua a ser um objetivo bem presente?
-Sempre. Representar a seleção é um sonho que nunca desaparece. É algo que me motiva todos os dias a trabalhar mais e a melhorar. Sei que o caminho passa pelo rendimento diário e pela consistência.
Continua a acompanhar a Liga BPI à distância?
-Sim, sempre que posso.
Que leitura faz da atual edição?
-Vejo uma prova cada vez mais competitiva e equilibrada. Os jogos são decididos nos detalhes e isso demonstra a evolução do futebol feminino em Portugal.
Não esquece dois momentos
Mylena Freitas guarda com nitidez dois momentos que marcaram a carreira em Portugal. A 27 de maio de 2023, disputou a final da Taça de Portugal entre Famalicão e Braga, um jogo que ficou na memória do clube e da própria avançada. Dois anos depois, a 11 de fevereiro de 2025, esteve em destaque num particular frente ao PSG, por ocasião da inauguração do Estádio Amélia Morais, numa experiência que descreve como "única e inesquecível".
