Syzyi, médio do Vila Meã, jogava no Vila Real quando a investida russa sobre a Ucrânia deixou o mundo em polvorosa. Quatro anos de preocupações pelos amigos e familiares em Kharkiv
Syzyi é um médio ucraniano já com várias épocas em Portugal, onde chegou antes da agressão russa tomar proporções ainda mais dantescas. Quando a invasão arrancou em fevereiro de 2022, o atleta jogava no Vila Real, vivendo dias de angústia e privação de sono para perceber os acontecimentos, consultar a gravidade e zelar pela família, a viver numa das cidades mais massacradas por raides aéreos, Kharkiv. Hoje, com 30 anos, Syzyi continua a perseguir os seus sonhos futebolísticos por terras nacionais, atuando no Vila Meã, do Campeonato de Portugal. Reproduziu o seu pensamento ao JOGO, percorrendo todas as ramificações da tragédia.
"Desde o primeiro dia é um pesadelo que não acaba. Pode haver uma maior habituação, tenta-se esquecer, mas quando chegam as notícias, tenho sempre de falar com família e amigos que lá estão. Não dá para imaginar por aquilo que passam", conta o médio, que não se consegue desligar de imagens aterradoras. "Vi muita coisa que me chocou, o inacreditável que é bombardear escolas, hospitais ou prédios habitados por muitas pessoas. Isso não se esquece", defende, mergulhando na realidade que lhe é próxima. "Kharkiv sofre ataques praticamente todos os dias, as pessoas continuam a viver com muito medo, sem saber quando tudo vai acabar. Ficam sem luz, sem água, e é muito difícil viver assim. A minha família já fugiu para cá, mas muitos já voltaram por achar as coisas melhores. Mas agora vemos que tudo piorou, e está a piorar ainda mais. Temos um povo guerreiro, e não deixamos de acreditar que vamos ganhar e ser felizes de novo, quando voltar ao normal", avalia Syzyi, que chegou a Portugal em 2015/16 para defender as cores do Aves.
Sempre muito apoiado, passou por vários clubes e conheceu diferentes comunidades. "As pessoas aqui ajudam e perguntam por tudo o que é preciso. Sempre sinto essa empatia e cuidado, vejo imensa gente pronta a ajudar desde o primeiro momento. Vejo o meu contexto cá como sendo alguém que teve muita sorte em poder fazer uma vida normal. Fazendo coisas, esqueço outras, mas anda sempre comigo uma tristeza grande pela vida difícil dos meus compatriotas", elucida o médio do Vila Meã, identificando o lado mais tenebroso da guerra, as mais indesejadas e cruéis informações.
"Kharkiv sofreu bastante e continua a sofrer, mas temos um governo na cidade que está a trabalhar bem para conter as coisas, que tem feito um esforço por recuperar sítios que foram atacados e tem feito isso de forma veloz. Infelizmente, há perdas que tocam a todos, um rapaz que jogou comigo no Metalist morreu quando o seu prédio foi bombardeado. Custa muito receber estas notícias", desabafa, admitindo que "muita gente fugiu, deixando casa e familiares", rumo a Portugal.
Jogar a pensar nos soldados
Tendo sido sénior do Metalist, Syzyi tem, naturalmente, sentimentos profundos pelo futebol ucraniano, também obrigado à luta pela sobrevivência. "Não é o mais importante, as equipas e os campeonatos perderam nível e qualidade, mas, mesmo assim, há um grande esforço para se trazer um pouco de alegria às pessoas e segue vivo esse sonho dos ucranianos verem a seleção no Mundial de 2026", aclara, satisfeito com a dimensão das carreiras de jogadores que funcionam como embaixadores da causa.
"Os grandes jogadores que temos fora do país ajudam muito a Ucrânia. Dão voz e mantêm o país na agenda internacional, sem esquecer todos os guerreiros nas frentes de batalha", evidencia Syzyi, enaltecendo o hercúleo estofo de muitos que se alistaram nas forças armadas e na Guarda Nacional ucranianas. "Todos os atletas e desportistas representam a Ucrânia com o dobro de motivação, sabem que temos de lutar até à exaustão, com o exemplo de tantos no terreno de batalha no pensamento. Muitos deixaram o desporto para combater. Por todos eles, é preciso vencer", diz com emoção.