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UEFA suspende Prestianni: o que dizem especialistas em direito desportivo

Vinícius Júnior acusou Prestianni de insultos racistas AFP

Divergem sobre motivos da suspensão provisória aplicada ao extremo do Benfica, acusado de racismo por Vinícius Júnior

Especialistas em direito desportivo divergem sobre a suspensão provisória do futebolista do Benfica Gianluca Prestianni, apontando indícios disciplinares, elevada probabilidade de condenação e possíveis razões de segurança como fundamentos distintos para a decisão tomada pela UEFA.

"Estamos no curso de uma investigação, de um inquérito levado a cabo pela UEFA, em que, em face do texto do comunicado, haverá indícios suficientes ou relevantes da prática de um ilícito disciplinar por parte de Prestianni", afirmou à Lusa o professor universitário de direito do desporto, Alexandre Miguel Mestre, numa resposta escrita.

O advogado sublinhou que o comunicado da UEFA fala em "comportamentos discriminatórios", sem mencionar explicitamente racismo.

Alexandre Miguel Mestre admitiu que a suspensão preventiva terá sido aplicada ao abrigo do artigo 49 que "dá guarida a medidas provisórias (...) para a manutenção da disciplina desportiva, evitar prejuízos irreparáveis ou mesmo razões de segurança".

O especialista ressalvou, no entanto, que desconhece a prova recolhida até ao momento - documental ou testemunhal - e, por isso, evitou tirar conclusões definitivas.

Por sua vez, o especialista em direito do desporto Lúcio Miguel Correia considerou que a suspensão provisória resulta de uma avaliação preliminar que aponta para uma futura condenação disciplinar. "Essa suspensão provisória tem a ver com o facto de o instrutor da UEFA ter reunido prova suficiente para garantir um alto índice de probabilidade de sanção futura", explicou, precisando que a medida não constitui um castigo formal, mas "uma antecipação de uma pena que quase de certeza irá ocorrer".

O especialista disse ainda que a UEFA não tem seguido os princípios da presunção de inocência. "A UEFA tem-se baseado numa prova circunstancial, que não é aquilo que pedimos em Portugal. Não é necessário fazer prova cabal de quem disse o quê", explicou, acrescentando que tanto o relatório do árbitro como a prova testemunhal têm um peso determinante.

Já o especialista em direito desportivo Gonçalo Almeida referiu que a medida poderá ter sido motivada por razões de segurança e proteção. "Este tipo de medidas provisórias está perfeitamente respaldado no Regulamento Disciplinar da UEFA", declarou, sublinhando que a suspensão serve para "assegurar a administração da justiça, manter a disciplina desportiva, evitar danos irreparáveis ou atuar por razões de segurança e proteção".

Para Gonçalo Almeida, o contexto do caso - marcado por grande visibilidade internacional e pela sensibilidade do tema do racismo - pode ter pesado na decisão. "Atendendo à repercussão mundial desta situação, não só pela questão do racismo, mas também pelos atletas envolvidos, pelos clubes e pela competição, a UEFA poderá ter optado por esta suspensão provisória para efeitos de segurança, tanto para os intervenientes como para o público no jogo de quarta-feira", observou.

O especialista rejeita, porém, que a medida implique uma condenação futura. "Isto não quer dizer que estejamos já a antever uma decisão condenatória. Pode ter sido somente por questões de segurança", vincou.

Ainda assim, admite que o feedback do instrutor do processo e a prova recolhida até ao momento possam ter tido algum peso, embora considere improvável que a decisão tenha sido tomada com base numa antecipação da culpa. "Existe a presunção de inocência e não de culpabilidade. O jogador pode perfeitamente ser absolvido", esclareceu, alertando, todavia, também para o risco de um eventual dano irreparável caso a suspensão fosse aplicada como antecipação de pena e o jogador viesse a ser ilibado.

Para o advogado, ser impedido de participar num jogo da Liga dos Campeões e depois não haver forma de voltar atrás "criaria um dano irreparável".

Os especialistas lembraram ainda que o Benfica pode recorrer da suspensão provisória - que o clube já anunciou que vai fazer - para o Comité de Recursos da UEFA, embora dificilmente com efeito útil antes do jogo da segunda mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Champions.

Na passada terça-feira, na primeira mão do play-off, que o Real Madrid venceu por 1-0, o avançado brasileiro Vinicius Júnior, após ter marcado o único golo do jogo, terá sido alegadamente vítima de insultos racistas por parte do argentino Gianluca Prestianni, extremo do Benfica.

Lusa