Médio começou no futsal, mas depressa mudou de rumo para se tornar num jogador de referência. Leitura de jogo, assim como resiliência, são algumas das qualidades que lhe destacam
Diz-se que o futsal é o berço dos criativos e talvez não seja descabido pensar que tenha sido nessa modalidade, entre tabelas curtas e dribles, que nasceu Tiago Silva, mais concretamente no Sport Lisboa e Olivais. O médio que hoje conhecemos pelo que constrói nos relvados começou a praticar desporto nos pavilhões, por influência do pai, até descobrir o futebol. Os primeiros passos no desporto-rei foram dados no Benfica, clube onde acabou por não ficar, seguindo-se o Belenenses. "Lembro-me que o Ivan Cavaleiro disse-me: "Míster, tenho um amigo que joga mesmo bem e que gostava de vir para o Belenenses". Perguntei se era mesmo verdade ou se eram elogios de amigo [risos]. Mas era verdade. Mal tocou na bola, percebemos logo que ele tinha uma relação com ela fora do normal", recorda, a O JOGO, Romeu Almeida, que se cruzou com o atleta nos Azuis do Restelo.
Sempre com uma fome diferenciada de vencer, Tiago Silva não deixou que a não continuação no Benfica o desmotivasse. Pelo contrário: "Destacou-se mal chegou e jogou todos os jogos. O caráter e também o trabalho diário, já na altura, mesmo vindo de um clube grande, faziam a diferença. Teve sempre um comportamento extraordinário. Sei que era uma pessoa que também não cresceu com muitas facilidades, nos grandes luxos, e tinha muita fome de vencer. Foi uma mais-valia para o Belenenses. O objetivo dele era mesmo ser jogador de futebol e fez por isso. Tinha qualidade, mas trabalhou sempre no limite. Às vezes, os jogadores mais talentosos acham que o talento chega. Mas o Tiago nunca pensou assim e trabalhou sempre. Teve um comportamento exemplar, muito aguerrido, com uma qualidade acima da média. Vê sempre uma solução antes de receber a bola. Foi sempre um jogador muito criativo e de último passe".
Tranquilo, o jogador, agora no Catar após quatro épocas no Vitória, sempre foi um bom ouvinte e, na hora de entrar em campo, a paixão vinha ainda mais ao de cima: "Sempre foi muito inteligente e sabia quem liderava, por isso nunca se punha a jeito para nada, sabia que a margem não era muita [risos]. Sempre foi tranquilo e introvertido, mas era bom ouvinte e dava-se bem com todos. Teve sempre uma grande paixão pelos treinos e jogos. Na despedida do Vitória, lembro-me que ele disse: "Nem sempre fui perfeito, mas tudo o que fiz foi para ver o Vitória onde ele merece estar". O Tiago, mesmo não tendo braçadeira, era muito capitão. Para os outros era um exemplo", concluiu.
"Nem no pingue-pongue"
João Mendes, atualmente no Kayserispor, da Turquia, foi companheiro de Tiago Silva durante duas épocas no Vitória de Guimarães. "Tem uma personalidade muito forte e também gosta de brincar. É muito bem-disposto", começa por recordar, destacando o lado competitivo: "Muito, com qualquer coisinha. Seja no pingue-pongue ou no futebol, ele nunca gosta de perder em nada e fica mesmo chateado quando perde. Ficaram momentos muito bonitos, tanto fora como dentro do balneário. Ajudou-me muito. E ele é muito respeitado. É alguém que, quando fala, todos ouvem. Depois, nos treinos, é muito focado e trabalha sempre no limite, o que também contagia os companheiros de equipa. Lembro-me de uma vez, num jogo, em que ele fez uma "vírgula", o que é difícil, mas que ele faz de olhos fechados. Num jogo, saiu-lhe mesmo bem e deixou o adversário para trás. Lembro-me de que a minha reação foi rir. Temos esse vídeo guardado, foi um momento engraçado".
Álvaro Pacheco também se cruzou com o médio nos Conquistadores e lamenta que os clubes portugueses não tenham tido outro olhar perante o médio. "É um jogador que tem um nível de rendimento extraordinário e é muito regular ao longo da temporada. É um jogador muito acima da média. Acho que o Tiago, por aquilo que fez e pelo que desempenhou e realizou, merecia, pelo profissional que é, uma carreira diferente. Que as equipas ditas grandes portuguesas olhassem para ele de uma maneira diferente. Ele jogou num clube grande, que é o Vitória. É um jogador completo, fora de série com bola. Não tem medo", descreveu.
Com um rendimento consistente ao longo das temporadas, Álvaro Pacheco acredita que o segredo está também no trabalho fora de campo: "Trabalha todos os dias no limite para chegar preparado aos jogos e tem imenso cuidado com o trabalho fora de campo, nomeadamente com a alimentação e o descanso. Depois, quando chega ao treino, treina a sério. Em qualquer exercício, impõe garra e vontade de vencer. Ele é um exemplo para os mais jovens, por aquilo que passa. É um autêntico capitão, mesmo sem braçadeira".