Sérgio Conceição, treinador português que agora comanda os sauditas do Al Ittihad, deu uma entrevista ao jornal italiano La Gazzetta dello Sport, que foi publicada esta segunda-feira
Um homem com muita fé: "A fé é uma parte fundamental da minha vida. Sou católico praticante. Aqui não posso, mas em Milão ia à igreja todos os dias. Há alguns meses, o Papa convidou-me para o Jubileu para falar sobre a minha jornada e as minhas dificuldades. De onde vem a minha fé? Perdi o meu pai aos 16 anos num acidente de moto, a minha mãe aos 18 após uma longa doença e, depois, um irmão. Eu era o sétimo de oito filhos. A fé deu-me força e paz de espírito. Quero mostrar aos meus pais que estou aqui e que realizei todos os meus sonhos. Mas, no fundo, escondido, tenho e sempre terei algo "sombrio", como uma sombra."
Por causa da perda dos seus pais? "Sim. Tenho fotografias deles comigo e rezo por eles todos os dias. Sou um homem tranquilo, tenho cinco filhos, joguei e agora sou treinador, mas sei que nunca serei completamente feliz sem os meus pais. É um vazio dentro de mim."
Os seus filhos preenchem um pouco esse vazio... "Claro. O Francisco agora está na Juventus e está a ir bem."
Fala sobre futebol em casa? "O mínimo possível. O importante é que eles deixem os telemóveis no bolso durante o jantar. Exigi o mesmo no FC Porto e no Milan. O Francisco estreou-se comigo em Portugal. Em 2020, durante o confinamento, disse-lhe: 'Se tens fome... então bebe água'. Ele estava um pouco gordinho. Para fazer a diferença, é preciso sacrifício e mentalidade. Se pudesse, emprestava-lhe a minha fome. Não que ele não a tenha, pelo contrário, mas quando eu tinha 16 anos, trazia dinheiro para casa para comer, era diferente. Mas sempre acreditei nele. E ele também acredita em si mesmo."
Quantos clubes procuraram os seus serviços? "Estive em contacto com a Lázio, mas não só com eles. Mesmo antes de assinar com o Al Ittihad, tive outras ofertas. A liga aqui é competitiva, as ambições são altas e os treinos acontecem à tarde, em vez de pela manhã. É preciso adaptar-se à dinâmica cultural. Mas isso é um desafio, e eu adoro desafios como esse."
Qual é frase que melhor o representa? "'Não se consegue grandes coisas em águas calmas; é preciso uma tempestade.' Mihajlovic, falando sobre Benassi, disse que a dificuldade não era ser capitão, mas acordar às quatro da manhã e trabalhar. Os meus pais ensinaram-me isso. E não se deve contentar com menos. Matriculei-me na universidade aos 51 anos. Estou a fazer um mestrado em treino desportivo."