Num fim de semana de chuva e com jogo decisivo da Seleção foram muitos os adeptos do Boavista que compareceram em Ramalde
O JOGO saiu à rua numa chuvosa tarde de domingo para ver como os adeptos do Boavista estão a lidar com a fase difícil que o emblema atravessa. Mas para entender esta história precisamos de recuar até ao dia 17 de julho deste ano e reviver um dos episódios mais negros na história do Boavista.
Nesta data, os axadrezados anunciaram que não iriam recorrer da decisão da Federação Portuguesa de Futebol em recusar a inscrição na Liga 3 e no Campeonato de Portugal, depois da participação na II Liga já ter sido negada pela Liga. Esta decisão levou à descida até à Hyundai Liga Pro, a primeira divisão da distrital do Porto. Depois, uma divisão em três partes do histórico emblema da Invicta: clube, SAD e Panteras Negras, este último criado pelos adeptos no início da época. Mais recentemente, outro anúncio que constituiu um murro no estômago dos adeptos axadrezados, o Boavista clube, que competia no último escalão da AF Porto, abandonou o futebol sénior, depois de não ter efetuado nenhuma partida na presente temporada.
Os apoiantes do Boavista estavam divididos e desolados, restando-lhes apoiar a Boavista SAD, que no último fim de semana fazia o nono jogo no principal escalão da distrital do Porto, com um registo de dois empates e seis derrotas. Num dia de imensa chuva e com um jogo decisivo da Seleção Nacional às 14h00, os adeptos compareceram para apoiar a equipa no encontro frente ao Lousada, às 15h30. Pouco mais de 300 pessoas saíram do conforto das suas casas e marcaram presença no Parque Desportivo de Ramalde, que tem sido o substituto do Estádio do Bessa, para apoiar o emblema axadrezado. "As bancadas têm sempre muita gente ainda fiel ao Boavista, mesmo aqui na distrital", contou Manuel Arouca, boavisteiro há 42 anos, que lamenta a perda de um recinto repleto como era habitual nos tempos áureos. "É evidente que [o Boavista] perdeu muitos sócios a ver os jogos, é normal. Mas tem havido sempre muita gente a acompanhar, tanto em casa como fora", ressalvou Manuel. "De uma forma geral gosto de acompanhar o Boavista, independentemente de estar na primeira ou aqui na distrital. É um clube de que gosto muito", frisou, apesar de não ter grandes dúvidas sobre um futuro "penoso" e no qual tem poucas esperanças de ver melhorias em breve. "A descida não foi benéfica, até porque nem se sabe como é que isto vai andar para o futuro. A nível de culpas, é muito subjetivo. Uma pessoa não está lá dentro, não sabe. Acho que, no fundo, a culpa é de vários gestores, ao longo de vários anos, que geriram mal o Boavista. Chegou a um ponto em que, agora, não há volta a dar."
Facto é que a Boavista SAD triunfou por 3-1 frente ao Lousada e alcançou a primeira vitória na prova. A equipa pode continuar a ocupar o último lugar da Hyundai Liga Pro, com cinco pontos, e ser a defesa mais batida, com 23 golos sofridos, mas a alma boavisteira foi visível na vitória, em que a formação de Jorge Couto até começou a perder, provando que, por mais dificuldades que existam, o espírito axadrezado nunca morrerá.
Boavista SAD é a equipa mais nova da distrital
Dos 22 jogadores que já participaram nesta edição da distrital do Porto com a camisola axadrezada, o mais velho (Tiago Machado) tem 21 anos e o mais novo é Martim Moura, com 16. A Boavista SAD é, assim, a equipa mais jovem da Hyundai Liga Pro, com uma média de idades de 17,86. Este número é bastante inferior à média do campeonato (23,67).
Mudanças e críticas são prato do dia, mas o hino fez-se ouvir
No Parque Desportivo de Ramalde, que tomou o lugar do Estádio do Bessa nesta nova fase do Boavista, houve práticas que se mantiveram. Pela primeira vez, o hino do Boavista acompanhou a entrada das equipas e, nas bancadas, os adeptos mostraram apoio com tarjas, tambores e cânticos, entre eles, um novo e com críticas. "Onde está o Garrido? Eu sei lá... Onde está o Gerard? Eu sei lá... Onde está o Fary? Eu sei lá... Mas nós estamos cá", entoavam os apoiantes axadrezados, convictos de que a presença se superioriza à do presidente do clube, do acionista maioritário e do presidente da SAD, respetivamente.
Laço de sangue nas bancadas
Nas bancadas dos encontros do Boavista são vários os adeptos que têm laços familiares com elementos do jogo. "O meu filho vem como apanha bolas e vim com ele", conta Manuel Arouca, que assistia à partida junto a outros familiares de jovens jogadores. "São pais de miúdos que também jogam nos sub-11 do Boavista", explicou ao nosso jornal.Apesar de uma distância de apenas dois quilómetros e meio entre o Estádio do Bessa e o Parque Desportivo de Ramalde, que acolhe agora os jogos dos axadrezados, a verdade é que o afastamento emocional é bem maior para os adeptos boavisteiros, habituados a ver a equipa nos lugares cimeiros da I Liga. O clube foi um dos cinco emblemas a vencer o principal escalão português e, após a descida aos distritais, o apoio tem sido garantido pelos mais apaixonados, à conta também dessa ligação especial que aproxima bancadas e jogadores.Prova disso é Ana Rodrigues, que assistia ao jogo por causa dos sobrinhos. "O que me trouxe aqui foi a família, tenho dois sobrinhos a jogar no Boavista", explicou, alimentando a esperança de que o histórico clube consiga inverter o mau momento. "Acredito que vão dar a volta. É uma equipa muito jovem, principalmente composta por miúdos que jogavam nos sub-19, e eles estão a dar tudo pelo clube", garantiu a adepta axadrezada, explicando que o apoio irá manter-se incondicionalmente. "Para quem gosta do clube, tem mesmo de ser assim", concluiu.
"Seleção? Prefiro ver o Boavista"
Um apoiante do Boavista abordou a divisão criada entre adeptos devido à rutura entre clube e SAD. "Não jogar no Bessa muda muita coisa, além da guerra entre clube e SAD. Mas, quem gosta disto vem ver", confessou Rafael Magalhães, revelando que só começou a assistir aos jogos da equipa da SAD quando o clube desistiu do último escalão da AF Porto e encerrou a prática de futebol sénior. Questionado sobre o porquê de estar num jogo da distrital ao invés de ver a partida decisiva da Seleção Nacional, que enfrentava a Arménia, Rafael não teve dúvidas. "É o clube do meu coração. Prefiro ver o Boavista do que a Seleção", referiu, contando que tem assistido "com tristeza" à queda dos axadrezados. "A culpa é de muita gente, não é só uma pessoa, mas há que continuar a apoiar", concluiu.