Campeonato de Portugal

Um regresso duas décadas depois: "A escola dos meus filhos é ao lado do estádio"

Paulo Grilo nasceu para o futebol na Figueira da Foz, mas saiu cedo e a ligação ao clube da terra perdeu-se. Agora, uma junção de fatores levou-no a regressar ao emblema figueirense

Corria o final dos anos 90 quando o pequeno Paulo Grilo, nascido na Figueira da Foz no seio de uma família ligada ao futebol, começou a jogar à bola na Naval 1.º de Maio. Na altura, os seniores do emblema da Figueira da Foz disputavam a II Liga e, nos anos seguintes, acumulariam sucessivas participações no máximo patamar do futebol português. Grilo cresceu como jogador na Figueira da Foz, mas saiu quando era sub-15 para ir representar a Académica. Concluiu a formação na Briosa e, como sénior, andou por Tourizense, Académica, Santa Clara, Freamunde, Covilhã, Penafiel e Feirense, entre outros, quase sempre nos campeonatos profissionais, designadamente no segundo escalão, onde somou 144 partidas.

Aos 34 anos, e depois de na campanha passada ter representado o Beira-Mar, surgiu a hipótese de regressar a casa, à agora refundada Naval 1893. "Nunca tinha pensado nisso, andei sempre longe de casa, só nos últimos dois anos é que, por jogar no Beira-Mar e no Oliveira do Hospital, ia e vinha todos os dias", explica o esquerdino a O JOGO sobre o regresso a casa. "Foi uma junção de vários fatores. A nível familiar dá-me imenso jeito, porque a escola dos meus filhos é ao lado do estádio. Vou deixá-los de manhã e depois vou treinar. Além disso, quero ajudar o clube a sustentar-se no Campeonato de Portugal, que cresça e se reestruture para, num futuro próximo, conseguir subir de divisão", completa.

À distância, Grilo viu a queda e a extinção do clube "do meu avô e do meu irmão". Foi necessário criar a Naval 1893 no escalão mais baixo dos distritais da AF Coimbra para reerguer o histórico da Figueira, embora a cidade continue algo alheada. "Não é só um mal da Figueira da Foz, os clubes afastam-se das pessoas e as pessoas do clube. Na zona centro é mais assim. No norte, nem tanto. Dentro de campo estamos a tentar mudar isso", assegura. Os anos 2000 foram marcados por sucessivos episódios de salários em atraso e incumprimentos na Naval, algo que mudou completamente. "O relvado do estádio agora é sintético e tenho dúvidas que, no Campeonato de Portugal, alguém tenha condições melhores do que as nossas nos balneários, ginásio e posto médico. Depois, a Direção é cumpridora, paga a tempo e horas, o que é muito importante", elogia o jogador do segundo classificado da Série C do Campeonato de Portugal. Com duas assistências em 11 jogos, Paulo Grilo sente-se "bem" aos 34 anos e acha que ainda pode fazer "mais dois ou três anos". "Se não tiver lesões... Se voltei à Naval para acabar a carreira? Pode acontecer...", atira. No futuro, apesar de já ter o primeiro nível de treinador, não se vê a fazer carreira nos bancos. "O treino não é uma coisa que puxe muito por mim", comenta.

Filhos jogam à bola na idade de brincar

Sérgio Grilo, irmão de Paulo Grilo, também jogou na Naval 1.º de Maio, enquanto o pai, Sérgio Paulo Neves, foi defesa-central que chegou a passar pelo Belenenses, na década de 80 e 90 do século passado. Face à tradição familiar, O JOGO quis saber se os filhos de Paulo a continuarão, mas o médio não está muito preocupado com isso. "Tenho dois rapazes que jogam num clube aqui da Figueira da Foz, mas eles ainda estão na idade de brincar", desvaloriza.

João Maia