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Ricardo Pereira: para trás um educador de infância e um psicólogo clínico

Ricardo Pereira, ao centro

Treinador de guarda-redes não deixa ninguém indiferente. Trabalha atualmente no Independiente del Valle, do Equador.

Figura carismática por onde tem passado, Ricardo Pereira é um treinador de guarda-redes que não deixa ninguém indiferente, marcando uma empatia fácil com quem o rodeia. Aos 49 anos, exerce feliz, descaradamente apaixonado, a sua tarefa no Equador, oferecendo a sua competência no crescimento do Independiente del Valle, por quem já conquistou a Taça Sul-Americana, diante do São Paulo e a Recopa frente ao Flamengo. Acabou de ser fortemente pretendido pelo Mengão mas não se deixou inebriar pela potência popular do emblema carioca.

Perceber a vida do Ricardo antes de ser treinador de guarda-redes porque li uma história curiosa de trabalhar num jardim de infância?

O Ricardo é um homem de paixões, orgulhosamente filho de dois "peixeiros" de Queluz-Monte Abraão que lhe ensinaram que o que fizermos devemos fazer com a máxima entrega e perfecionismo.

Por personalidade, agreguei a isto, a paixão! Nunca gostei de fazer coisas por obrigação, que não me estimulassem ou desafiassem. Assim, fui-me construindo, fazendo as coisas com muita paixão e sendo muito competitivo comigo mesmo e com os outros...

Quando não gostava do que fazia era um desastre completo, mas quando me desafiava e gostava era sempre dos melhores!

Apaixonei-me pela Educação de Infância e depois pela Psicologia Clínica... e como tal... vamos lá licenciarmo-nos nestas áreas e ser o melhor aluno em ambos os cursos e o melhor profissional que conseguir.

Amei todas as minhas experiências enquanto Educador de Infância e Psicólogo que são para mim duas das profissões mais nobres e apaixonantes que conheço!

Faço aqui um parêntesis para acrescentar que, curiosamente, sou casado há quase 25 anos com uma psicóloga clínica, e para destacar que devo "as minhas várias carreiras profissionais" à minha família que sempre me transmitiu paz e alento para "voar" e alcançar os meus sonhos por mais "loucos" ou difíceis que fossem.

Quando me preparava para terminar a minha carreira como guarda-redes (amador) senti que não podia viver sem o futebol... E de um dia para o outro... Adeus educação de infância! Adeus psicologia clínica! E começou assim... uma nova história de vida: Bom Dia! Sou o Ricardo Pereira, tenho 38 anos, não percebo nada de treino de guarda-redes, mas quero aprender tudo!!! Ofereço-me para trabalhar de graça, podem ajudar-me e ensinar-me?

Que grande missão o retirava mais depressa do Equador, um desafio de um grande de Portugal ou algum convite mais exótico?

Tenho um amigo do peito, uma amizade forte e recente, que trabalha num dos maiores clubes do Mundo...com quem ocupo alguns dos meus tempos livres e de solidão conversando sobre o futebol, sobre tipos de liderança, sobre o futuro, etc.

Sabem o que me diz? "Ricardo, escolhe bem quando quiseres mudar. Primeiro percebe muito bem com quem vais trabalhar, depois "a que jogam esses treinadores" e por fim como reagem quando a "chapa está a queimar" ... O mais importante é estares feliz independentemente do mediatismo do clube!!!"

O futebol pode ser uma fonte de inacreditável prazer como de inigualável sofrimento e isso não tem a ver só com a pressão exterior porque essa diz-me pouco... tem a ver com aqueles com quem compartes as vitórias e as derrotas...as atribuições causais e de responsabilidades que se fazem quando ganhamos e perdemos, com os teus líderes, etc.

Por questões de proximidade da minha família, Portugal é o meu destino de eleição, mas por algum motivo já recusei várias propostas da nossa Primeira Liga.

O projeto, as pessoas, o tipo de jogo, e o reconhecimento desportivo e financeiro da função do Treinador de guarda-redes têm que estar alinhados.

Penso que poderei voltar a curto prazo para a Europa, mas na minha decisão pesará sobretudo a equipa técnica com que vou trabalhar, o projeto e o estilo de jogo...

Quem sente o gostinho de trabalhar com treinadores que pedem que a bola se mova sem a ansiedade de se desfazerem dela até encontrar o homem livre; quem tem centrais e guarda-redes a conduzir para fixar; quem consegue que os seus jogadores rompam no espaço só para libertar um companheiro que ficará livre para receber; quem joga com os centrais abertos e constrói a 3 com o guarda-redes; ou "prova" a satisfação de somar gente num sector para eliminar quatro ou cinco adversários com esta atração e a partir daí acelerar.

Quem "joga a isto", depois tem muita dificuldade em voltar à incerteza de dividir a bola e jogar nas segundas bolas ou esperar pelo adversário no seu meio-campo no momento de pressionar, mesmo que às vezes tal tenha de acontecer.

À imagem do que sou como pessoa, não acredito em fundamentalismos, não defendo soluções únicas, mas sim a capacidade de adaptação ao que o jogo nos está a oferecer.

Todavia sei muito bem o que prefiro e como me sinto mais perto de ser competitivo, desfrutar do jogo e ganhar.

Defendo que o medo de perder nos deve empurrar para a frente com um jogar de coragem e ousadia ao invés de nos paralisar dando o domínio e a bola ao adversário.

É isto que tenho atualmente e era isto que gostava de ter no meu próximo desafio profissional!

Qual aquela grande história de um guarda-redes que tenha ajudado a forjar, que fosse à primeira vista impossível?

Tenho uma especialidade estranha! Acho que me especializei em tornar os suplentes ou terceiros guarda-redes em futuros titulares.

Como não jogam, levam tanta "porradinha" no treino que coitados têm que melhorar à força!

Mais a sério, há três pontos na minha filosofia de trabalho que explicam isto, a primeira é que a minha dedicação e atenção a quem não joga é extrema, a segunda é que há muitos anos que falo em algo que aplico diariamente que é um plano de desenvolvimento individual para cada guarda-redes, a terceira é o tempo mais alargado de trabalho individual com estes guarda-redes que normalmente pela sua juventude estão ávidos para beber da fonte.

Destaco três nomes que me marcaram e que passaram por este processo: André Ferreira (Granada), Radek Majecki (Mónaco) e Arnaud Bodart (Standard de Liège).

Diferentes mas iguais em alguns pontos que quero realçar e que gostava que servissem de inspiração para quem não está atualmente a jogar: determinação extrema para lutar pelo lugar, resiliência inacreditável para resistir à frustração, energia renovada a cada dia para cair e levantar 500 vezes se necessário fosse, confiança inabalável nas suas capacidades e na resposta que podiam dar quando chegasse o momento, humildade e apoio ao companheiro que estava a jogar mas sem qualquer subserviência ou acomodação, abertura total para qualquer tarefa que os ajudasse a melhorar as lacunas do seu jogo fossem elas táticas ou técnicas, entre muitas outras.

A qualquer um destes três rapazes tardou, mas chegou o momento de terem uma baliza para defender e fazem-no hoje com muita qualidade, personalidade e inteligência tática.

Pedro Cadima