Futebol Feminino

"Não jogava porque os pais não gostavam que houvesse uma rapariga na equipa"

Clara Nóbrega, jogador do Torreense

Clara Nóbrega, jogadora do Torreense, concilia o futebol com estudo de Desporto. O pior são as saudades de casa.

Clara Nóbrega iniciou a sua carreira no 1.º Maio Funchal, seguiu-se o APEL - onde jogou futebol e futsal, em simultâneo - e atualmente faz parte do plantel do Torreense, emblema que está a competir na fase de Apuramento de Campeão.

Em que altura descobriu a sua paixão pelo futebol?

- Gostava de ver as minhas primas a treinarem-se e, depois disso, recordo-me de pedir à minha mãe para começar a jogar. Tinha cerca de quatro anos nessa altura.

Para além do futebol, também passou pelo futsal. Que diferença encontra entre as modalidades?

- São completamente diferentes, tanto ao nível técnico como do próprio jogo. Sinto que o futsal me ajudou enquanto atleta. Na Madeira, praticava futebol e futsal em simultâneo para ter mais oportunidades de competir.

Quando começou, passou pela experiência de jogar em equipas mistas?

- Sim, até aos 13 anos. Crescemos muito a jogar com rapazes. Eles têm uma capacidade física que, por vezes, nós não temos. E, mesmo ao nível de jogo, é mais agressivo e isso ajuda-nos a crescer e a evoluir.

Sentiu algum tipo de preconceito por ser uma rapariga a jogar futebol?

- Sim... antes de ir para o feminino houve uma época que senti algum preconceito. O treinador chegou a dizer que eu até tinha mais qualidade do que alguns rapazes, só que ele não me colocava a jogar porque os pais não gostavam que houvesse uma rapariga na equipa. Foi complicado.

No verão mudou-se para o continente para ingressar no Torreense. Como está a ser esta primeira aventura longe da Madeira?

- Está a ser uma experiência muito boa. Nunca pensei que corresse tão bem. Estou a gostar muito da convivência com as pessoas, com uma realidade totalmente diferente. Mas, acima de tudo, do que estou a gostar mais é da competição.

E o que foi mais complicado, nesta mudança?

- As saudades de casa e da minha família são o mais complicado. Claro que, com os estudos e os treinos, também estou mais distraída e isso facilita as coisas. Desde que cheguei, em agosto, só fui no Natal a casa.

Diante do Braga, estreou-se pela equipa principal. Qual foi a sensação?

- Foi um sonho, porque nunca pensei que no primeiro ano no continente me pudesse estrear na equipa principal e, ainda por cima, contra uma grande equipa como é o Braga. Senti-me completamente realizada.

O que espera do Torreense nesta fase?

- Acima de tudo, queremos fazer pontos. A equipa precisa de confiança e de vitórias, mas sabemos que nesta fase os jogos são mais complicados do que na primeira fase. O mais complicado têm sido as lesões que afetaram a equipa.

Para além de jogar, também estuda. É difícil conciliar as duas coisas?

- Estou a tirar o curso de desporto e a carga horária é grande... É um bocadinho complicado porque saio da escola e vou logo para os treinos. Saio às 8h00 e chego às 21h00, todos os dias, mas quem corre por gosto não cansa.

Quais são os sonhos para o futuro?

- No futuro próximo, quero agarrar um lugar na equipa principal e então depois sonhar mais alto. Sonhar com outras ligas, onde o futebol é sentido de outra forma. Aqui ainda precisa de evoluir um bocadinho mais.

Filipa Mesquita