Desde março, por força da pandemia, que não há competições de futebol nos escalões de formação. O número de inscritos caiu 78%, cortando uma fonte de receita dos clubes e precipitando uma crise.
Em 2019/20 estavam inscritos, nos escalões de formação (futebol e futsal, masculino e feminino), de acordo com os dados das 22 associações regionais do país, 154 811 atletas.
Mas, com o estalar da pandemia, o burburinho e azáfama nos complexos desportivos deu lugar à incerteza e são muito poucos os atletas a treinar, todos à espera de uma resolução que lhes permita voltar a competir.
Atualmente, os clubes têm inscritos 33 702 atletas. São menos 121 109, o que reflete uma quebra de 78%. E só não é maior porque nas associações dos arquipélagos as competições estão a decorrer com normalidade.
No continente, associações e clubes apontam dificuldades e até a possibilidade de clubes desaparecerem, tal como aconteceu já com três emblemas da AF Beja.
"Há clubes que só têm formação, pelo que podemos dizer que, neste momento, estão inativos", lamenta Daniel Pina, da AF Portalegre. "As camadas jovens são uma fonte importante de receita para os clubes, que podem ser gravemente afetados, caso vejam também esta fonte de receita acabar. Se acontecer, prevejo grandes dificuldades para todos", acrescenta José Neves, presidente da AF Porto. António Pereira, líder da AF Évora, diz ter conhecimento que vários presidentes estão a tentar aguentar os respetivos clubes "até dezembro, e se não houver solução, terão de desistir porque não têm dinheiro".
Nem mesmo os mais criativos conseguem amenizar as dificuldades. É o que acontece em Aveiro, ao criar a subscrição das transmissões dos jogos do principal campeonato distrital, com as receitas a reverter para a equipa da casa. "Há muitos clubes em agonia, em imensas dificuldades, pela falta de público e ausência de receitas. Inventamos a transmissão dos jogos do campeonato Sabseg, ainda assim, os clubes têm imensas dificuldades", afirma o dirigente Arménio Pinho.
Neste capítulo, o Caldas é um exemplo paradigmático: das 20 equipas da última época, tem apenas três, seniores. "É uma quebra na ordem dos 70%. É significativo para um clube que tinha mais de 400 atletas na formação. É difícil, aliado à falta de espetadores nos seniores", aponta Jorge Reis, presidente do Caldas.
Se os clubes têm dificuldades económicas, essa dificuldade terá reflexos na tesouraria das associações. Manuel Nunes, da AF Leiria, prevê um impacto na ordem dos 55%. Horácio Antunes, da AF Coimbra, calcula um prejuízo de "200 mil euros até agora", valor semelhante a outras associações, e considera que, a manter-se a indefinição, "algumas vão ter de despedir pessoal".
Para atrair os (poucos) atletas à formação, as direções associativas estão apenas a pedir aos clubes que paguem o seguro, de modo a que os jovens possam treinar individualmente (as normas da DGS não permitem exercícios coletivos). O valor da inscrição será pago aquando do arranque das competições... se tal acontecer. "Com alguma responsabilidade, a formação devia abrir, ainda que num formato diferente", defende Manuel Machado, da AF Braga, tal como todos os seus congéneres. A ausência de competição "pode mesmo trazer problemas de sanidade mental", acrescenta.
Saúde mental em risco
A saúde mental é um problema central, pois, "neste momento temos uma montanha russa de emoções, muitas delas negativas, desde ansiedade, receio, frustração e desilusão", como descreve Jorge Silvério, psicólogo de desporto.
Uma preocupação com um alcance "a médio e longo prazo" e que se baseia em resultados de estudos recentes, nomeadamente nos Estados Unidos. "Apontam que três em cada dez crianças, ou seja 30%, desistirão dos desportos que praticavam antes da pandemia. Em termos de desenvolvimento psicossocial, o desporto é extremamente importante", alerta Jorge Silvério, sentindo que, assim, "faltará um pilar essencial para construção de identidade dos jovens".
A estes problemas soma-se a necessidade de trabalhar talentos para chegarem aos patamares seniores. "Se não dermos a mão aos juniores, ele começam a ter outras atividades. Vamos perdê-los. Temos de ter uma máquina de alimentação dos seniores", alerta António Pereira, presidente da AF Évora. Talvez por isso, todos - à exceção das associações dos arquipélagos, onde a competição é uma realidade - os dirigentes estão otimistas quanto ao regresso das provas. "Se tivermos luz verde do Governo, avançamos. Estamos preparados para fazer os ajustes necessários para poder proporcionar essa alegria aos jovens e aos pais", diz Reinaldo Teixeira, presidente da AF Algarve. José Loureiro, vice-presidente da AF Lisboa, propõe que a retoma siga os moldes das Ligas profissionais. "É um processo gradual que levou cerca de 45 dias, em que os atletas fiquem em condições para competir."
O grupo de trabalho criado pelos gabinetes do secretários de Estado da Juventude e do Desporto e do Adjunto e da Saúde deixa esperança, mesmo que nenhum dos oito elementos que o compõem façam parte de federações ou associações desportivas.
Ilhas querem ser exemplo
Açores e Madeira, com a autonomia regional, têm os campeonatos de formação a decorrer. E aí, a perspetiva de fazer face à pandemia é diferente. "É uma forma de combater a doença porque, com tanto controle, aparecendo um infetado conseguirmos definir a rede de contactos", explica Robert Câmara, presidente da AF de Ponta Delgada. O dirigente entende mesmo que o caso das ilhas pode "ser visto como exemplo e ser transportado para uma escala maior", ou seja, para o continente.