Futebol

Ricardo venceu o cancro e conta: "Não há suspiro final, mas sinto-me aliviado"

Ricardo contou tudo sobre a batalha contra o cancro a O JOGO Rui Manuel Ferreira / Global Imagens

ENTREVISTA (Parte 1) - Ricardo regressa esta terça-feira aos treinos depois de superar um cancro nos testículos e conta a O JOGO a história do triunfo mais importante.

Falamos em cancro, porque Ricardo fez questão de nunca usar eufemismos. O guarda-redes de 37 anos deixou o futebol de lado para lutar pela vida. Ganhou por goleada e agora quer voltar a ser o n.º 1 do Chaves e ainda ir a tempo de subir de divisão. Hoje volta a treinar. Antes, O JOGO conversou com ele.

O Ricardo nunca teve problemas em assumir que parou por causa de um cancro nos testículos. Como descobriu o problema?

-Foi ocasional. Já me vinha a queixar de outro problema. Tinha ido a um urologista antes, mandou-me fazer umas análises, mas estaria tudo bem. Tomei um antibiótico e passou. Passado mês e meio voltei a queixar-me. Estávamos em pré-época, em Melgaço, e falei com o médico do Chaves. Ele decidiu repetir os exames e fazer ecografia à próstata e exames ao sistema urinário todo. Foi aí que se detetou o problema.

Até então, nos treinos, tinha-se sentido sempre normal?

-Normalíssimo, nunca senti problema nenhum, nunca senti nada na palpação, tanto que, dois meses antes, o urologista tinha-me palpado os testículos e não tinha sentido nada.

Entretanto fez mais exames...

-Depois marcaram-me a ecografia para um sábado em que recebíamos o Mafra. Fui equipado e tudo, pois a seguir ia jogar. Foi quando o médico me disse que o melhor era pegar no exame, ir a um hospital e falar com um especialista. Não me disseram logo a verdade.

Encarou de ânimo leve ou ficou preocupado?

-Fiquei preocupado, porque senti que o médico também estava preocupado e começou a fazer-me muitas perguntas. Perguntei-lhe se era grave e o médico disse que poderia ser ou não. Mas ele já sabia, não queria era preocupar-me. Disseram-me que era um tumor, mas podia ser benigno ou maligno; mas os tumores nos testículos são sempre malignos. Depois disseram que teria de fazer uma biópsia. Mas foi só porque me queriam calmo na viagem para o Porto. Falei com a equipa técnica, concordaram que não tinha condições para fazer o jogo. Fui a casa, peguei na minha esposa e fui diretamente para o hospital.

Contou imediatamente à sua esposa o receio ou esperou até a encontrar?

-Ela foi a primeira pessoa para quem telefonei. Palpitou-me logo que seria mais grave e queria sentir o apoio dela. Pensamos que só acontece aos outros, mas aconteceu-me a mim. Só pensava nos meus pequenitos [tem um filho de 6 anos e uma filha de 4]. Só pensava que queria continuar por cá para continuar a ampará-los. Passa-nos muita coisa pela cabeça.

Seguiu para o hospital, fez a biópsia...

-[interrompe] Não... isso foi outro engano. Não se fazem biópsias nestes casos. Enganaram-me para eu acreditar que havia a hipótese de não ser algo de grave e viajar tranquilo. Peguei na minha esposa, fui ao Hospital de S. João, o médico foi fantástico comigo, esclareceu tudo. Disse-me que tinha uma notícia boa e uma má, e eu quis saber primeiro a má. A má era que poderia não voltar a ter filhos, mas já tenho dois e isso não era um problema. A boa notícia era que a taxa de sucesso é elevada, independentemente do tempo que pudesse demorar.

Regressou a casa mais tranquilo depois da consulta?

-Sem dúvida, esse médico acalmou-me bastante. Até me contou o exemplo do Lance Armstrong, que também teve um cancro nos testículos e, depois disso, ainda ganhou a Volta a França em bicicleta, ainda teve metástases na cabeça e também conseguiu superar. Fui ficando cada vez mais tranquilo.

Seguiu-se a operação e nova avaliação...

-O médico perguntou-me se queria ser seguido no Hospital de S. João ou no IPO. A minha madrinha, que também luta contra o cancro e é tratada no IPO conhecia uma médica da nossa confiança e eu escolhi o IPO. Marquei consulta e segui os trâmites normais: colheita de sangue, pré-operatório e depois a remoção do testículo e colocação de uma prótese. Foi para analisar, ver a natureza do tumor, histologia, etc. Fiz exames complementares para ver se tinha metástases, mas estava limpo. E fiquei feliz com esta vitória.

Foi o suspiro final?

-[risos] Não, nisto não há suspiro final. Mas não vou mentir, foi um alívio. Confesso que a possibilidade de ter de fazer quimioterapia me assustava, não só pelo tempo de paragem superior, mas por tudo o que envolve uma quimio. Os médicos reuniram-se, analisaram tudo e decidiram o tipo de tratamento que eu tinha de fazer, que não passava por isso.

"VOLTAR É UMA VITÓRIA, QUESTIONEI-ME SE CONSEGUIRIA"

O amor pela vida supera a paixão pelo futebol, mas a carreira que agora retoma nunca foi totalmente posta de parte. Há um jogo especial já no horizonte.

No meio deste processo todo, como ficou a carreira?

-Eu pus um ponto de interrogação na minha carreira. Na minha cabeça, o foco era tratar-me, fosse o tempo que fosse. Quando a nossa vida está em jogo, nada mais interessa. Amo muito o futebol, mas amo mais a minha vida - tenho prazer em viver. A minha prioridade foi tentar curar-me. O futebol depois logo se via...

Nunca pensou em retirar-se? A sua carreira já é longa...

-Mas sou ambicioso e quero sempre mais. Enquanto tiver forças e achar que tenho capacidades, vou continuar a jogar. Tudo o que aconteceu no pós-cirúrgico, todos os exames que fiz, levaram-me a pensar que iria voltar o mais cedo possível. E é o que eu quero.

E em Chaves, como foi? Como deu a má e a boa notícia aos seus colegas?

-A má nunca a cheguei a dar, porque, na manhã que soube, fui-me embora e eles acabaram por saber pelas pessoas do Chaves. Mas nunca perdi o contacto e vinha a Chaves sempre que podia. Fui operado numa quarta e vim a Chaves logo no domingo ver o jogo. Em casa, sempre que pude, vi os jogos. E quando vinha, ia atualizando os meus colegas sobre a situação. E em conjunto com a Direção, departamento médico e treinador, fomos vendo como e quando poderia regressar, claro que sempre de acordo com o médico do IPO.

Sente alguma ansiedade pelo primeiro jogo após esta vitória?

-Ansiedade antes dos jogos é natural em qualquer jogador. Mas logicamente será um jogo especial, com muito sentimento, porque, quando apareceu isto, questionei-me se voltaria a jogar futebol, se iria conseguir. Para mim, será uma vitória pessoal. Lutei contra algo que, para já, venci. Voltar a jogar será outra luta que quero vencer. Estive uns meses parado e ainda tenho uma fase difícil pela frente até recuperar fisicamente. Venho de uma paragem e da luta contra uma doença oncológica, que é muito pesada.

André Morais