
Foram anos divertidos aqueles em que trabalhou a servir em bares, mas Cátia Pereira agora só quer saber de salto com vara. E a culpa é do "maluco" do namorado, Edi Maia, o recordista nacional da especialidade com o qual sonha ir às Olimpíadas de 2016. Para já, só quer saltar os 4,35 m que lhe garantirão a presença nos Europeus de Pista Coberta.
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SÓ CONVERSA por Ana Proença
Cátia Pereira começou a namorar com Edi Maia há pouco mais de cinco anos. O amor pelo atleta do Sporting fê-la descobrir outra paixão na sua vida: o salto com vara, onde já está entre as melhores atletas nacionais. Após os treinos bidiários, vai para um restaurante servir às mesas, onde, segundo diz, é "muito rápida", mas fica com "as pernas a latejar". Uma conversa com a saltadora de 25 anos que aprendeu a gostar de iguanas, ri muito, com muita vontade, e tem pânico de... salto em altura.
É verdade que o salto com vara tem as mulheres mais bonitas? Confirma?
[gargalhada] Não sei, muita gente diz isso... Realmente costumam ter uns corpos mais femininos, talvez por não se desgastarem tanto fisicamente como as corredoras... O salto com vara é a disciplina mais técnica que existe no atletismo. A seguir vem o dardo.
Quem faz salto com vara também faz salto em altura?
A técnica é completamente diferente e eu nem posso olhar para o colchão do salto em altura. Tenho pânico. As pessoas acham ridículo eu ter medo, pois no salto com vara chega-se muito mais alto. Sofri um susto em criança, experimentei e caí fora do colchão. O que hei de fazer? [risos]
E a Cátia por que escolheu fazer salto com vara? Não é uma especialidade com tradição em Portugal...
Eu já fazia atletismo, mas era velocista. E quando estava para abandonar o atletismo, pois treinava, estudava e trabalhava ao mesmo tempo, e já andava sempre lesionada, conheci o Edi Maia e comecei a ver treinos e provas de salto com vara. Então, comecei literalmente a sonhar que era saltadora com vara e a sensação era incrível. Resolvi falar com o Edi sobre o assunto, ele disse que eu era uma maricas e duvidava que conseguisse, mas assim que experimentei adorei. É uma adrenalina brutal!
Isso foi há quanto tempo?
Esta é a minha quarta época de pista coberta e vai ser a quinta ao ar livre. E já tenho a terceira melhor marca nacional de sempre ao ar livre (4,35), com a Sandra [Tavares] e a Marta [Onofre]. E em dezembro, fiz a quarta melhor em pista coberta (4,30). Tudo isto tem muita importância para mim. Só prova que nada é impossível. É acreditar sempre até ao fim.
Descobriu um talento inato ou tem sido mais fé e trabalho?
Acima de tudo, muito trabalho e dedicação. Horas e horas de treino técnico. Quando comecei a praticar, tinha três meses para chegar aos 3,00 metros, para ir ao campeonato nacional. Toda a gente achava ridículo, havia raparigas a treinar há mais de um ano que nem os 3,00 metros conseguiam fazer. E a verdade é que em três meses fiz 3,15 metros. E comecei a pensar: é isto que eu quero fazer! Só tenho um problema: para além de treinar, também trabalho.
Faz o quê?
Trabalho há três anos no restaurante A Travessa, no Convento das Bernardas, em Santos. Sirvo à mesa, o que não me permite descansar como deve ser. Dizem que sou muito rápida a servir, hoje depois do treino da tarde, o segundo do dia, lá vou eu para o restaurante. Fico com as pernas a latejar, é muito cansativo. Mas, mesmo assim, dou graças por ter os patrões que tenho, deixaram-me ir ao Campeonato da Europa e ficar sem trabalhar dois meses.
Não consegue dedicar-se ao treino a tempo inteiro?
Se conseguir saltar 4,42 metros, entro no plano de preparação olímpica e, nesse caso, já recebo um ordenado do desporto. É o meu objetivo para 2015. Se isso acontecer, deixo de trabalhar.
Mas porquê a restauração?
Antes trabalhava à noite, o meu pai era gerente do Hawaii e do Havana, nas Docas de Alcântara. E na altura em que ele trabalhava no Café In, que agora se chama In Rio Lounge, em Belém, precisou de uma pessoa para ir servir. Eu só tinha 17 anos, mas fui e comecei a gostar: treinava, trabalhava e estudava. Depois, fui para o salto com vara. No primeiro ano, ainda trabalhei à noite, mas em 2012 percebi que tinha de optar. Quando era velocista, saía do trabalho às seis da manhã e estava aqui a treinar às dez. Aguentei até a um ponto, depois andava sempre lesionada.
E gosta de sair à noite?
Detesto, faz-me confusão! Mas para trabalhar, adoro a noite.
Não tem de aturar bêbedos e chatos?
Claro que há sempre um bêbado mais atrevido, mas eu sempre soube colocar um ponto final quando a situação não me agradava. Trancava a cara e pronto! Mas gosto muito do tipo de comunicação que existe entre as pessoas à noite.
Com esses olhos verdes calculo que fizesse muito sucesso...
Sim. E eu e o meu pai fazíamos uma dupla imbatível. A Cátia subia para cima do balcão do Hawaii para dançar e o pai subia também. Aquilo era incrível. Foram momentos bastante bons.
Arranjou muitos namorados na noite?
Não. Nada mesmo. Juro. Sempre soube separar. E, além disso, os rapazes achavam que eu era
namorada do meu pai. E elas também [risos].
E se não tivesse conhecido o Edi? Acha que, mesmo assim, se tinha tornado saltadora com vara?
Não. Ele apareceu na minha vida naquele momento, deve ter sido com algum intuito [risos]... Eu nem sequer sabia que existia salto com vara em Portugal. Via a Yelena Isinbayeva e achava aquilo incrível, achava-a a espetacular, mas nem sabia que podia fazê-lo em Portugal.
Você e o seu namorado treinam juntos. Não passam a vida a falar de salto com vara?
Já falámos mais. A certa altura, percebemos que tínhamos de fazer uns programas diferentes e esquecer o salto com vara durante um bocado.
Têm outros interesses em comum?
[Gargalhada] O Edi é muito aventureiro, já tentei ser como ele, mas é muito complicado, ele é realmente maluco e eu sou mais calma e ligada à família.
É verdade que você lhe deu uma iguana?
Sim [risos]. Quando o conheci, ele já tinha uma iguana, aquilo era um bocado estranho para mim. Essa iguana morreu e acabei por lhe oferecer outra que, infelizmente, faleceu em outubro. Era como um cão, há fotos dela nos Campeonatos de Portugal, andava sempre atrás dele, chegava a sair do aquário para ir dormir com o dono. O Edi acordava e tinha-a em cima dele. Quando o Edi foi morar para o Centro de Alto Rendimento do Jamor, ela até tentou usar-me para fazer-lhe ciúmes... [risos
CHORAR ANTES DE COMPETIR
O avô foi barreirista do Benfica, o pai também praticou atletismo, depois futebol. "Aos cinco anos, o meu avô já me impingia o atletismo, cheguei a fazer provas no velho estádio do Benfica", conta a atleta do JOMA, clube da sua terra natal, Monte Abraão, Sintra. Foi depois de ver Francis Obikwelu a ganhar a medalha de prata nos 100 metros, nos Jogos Olímpicos de 2004, que decidiu ser velocista. Tinha 15 anos. "Lembro-me de o meu avô falar muito da Rosa Mota, muito mesmo. E depois as grandes referências eram o Obikwelu e a Naide Gomes", conta Cátia Pereira, que se estreou internacionalmente nos Europeu de Zurique, em que ficou pela ronda de qualificação. "Pisei a pista e as lágrimas vieram-me aos olhos. Pensei "estou realmente aqui". A confusão era tanta, que no primeiro salto fiquei em cima do colchão sem saber para onde ir. Foi lá o juiz buscar-me e indicou-me o caminho", recorda bem-disposta sobre a prova de agosto último, ressalvando que o tempo de espera para saltar é determinante. "No tempo de espera podemos deitar tudo a perder se não conseguirmos mantermo-nos concentrados".
SAIBA QUE
A russa Yelena Isinbayeva já bateu o recorde do mundo de salto com vara 28 vezes, considerando pista coberta e ar livre. Aquela que é considerada a melhor saltadora com vara de todos os tempos (a primeira mulher a passar a fasquia dos 5 metros) é, naturalmente, a grande referência de Cátia Pereira. "Identifico-me bastante com ela. É a minha referência não apenas pela técnica que tem, mas por tudo", afirma. E quem sabe se a portuguesa não conseguirá ainda competir, lado a lado, com a bonita russa. Isinbayeva foi mãe no último verão, casou-se no mês passado e reconsiderou a sua decisão de abandonar a carreira. A saltadora de 32 anos quer ir aos Mundiais de Pequim, que se realizam em agosto para, no ano seguinte, tentar o seu terceiro ouro olímpico.
4,30
Os 4,30 metros que Cátia Pereira saltou no Torneio de Preparação de Saltos que se realizou a 11 de dezembro último na nave do Centro de Alto Rendimento, no Jamor, são a quarta melhor marca portuguesa de sempre em pista coberta. A jovem, que cumpre apenas a sua quarta época de pista coberta no salto com vara, está a 14 centímetros do recorde nacional alcançado em fevereiro último por Leonor Tavares, em Pombal (4,44). O objetivo de Cátia Pereira para 2015 é saltar os 4,42 metros necessários para a entrada no programa de preparação olímpica. Para ir já em março aos Europeus de pista coberta, em Praga, na República Checa, terá de saltar 4,35 metros.
(Entrevista publicada na revista J a 4 de janeiro de 2015)
