
Hoje, provavelmente, não teria de subir ao limoeiro para a traquinice que lhe valeu o castigo da professora primária. Do alto dos seus atuais 1,96 metros, o secretário de Estado do Desporto e da Juventude falou da infância passada em Guimarães, dos desportos que praticou, mas também dos tempos de boémio em Coimbra, quando era o maestro da banda que tocava com retretes e autoclismos.
SÓ CONVERSA por Ana Proença
A bola de basquetebol estava vazia e, por isso, Emídio Guerreiro não conseguiu driblá-la no chão do seu gabinete em Algés, com vista para a antiga doca de Predouços. Também não se terá perdido grande coisa, fez habilidades suficientes para se tirar algumas fotografias. O próprio diz que não era um grande jogador, faltava-lhe técnica. Num cabide perto da sua secretária, várias gravatas penduradas dão indícios de um homem prevenido. "Algumas têm nódoas e vão ficando por aqui", comenta. Emídio Guerreiro tem 49 anos e é o governante português para as pastas de Desporto e Juventude. Pelo menos até às eleições legislativas de outubro.
Ser muito alto ajudou-o a conquistar namoradas no liceu?
Nesse aspeto não fez diferença. Mas fiquei a saber, já anos depois do liceu, que havia sempre pontos de encontro junto ao Emídio ao intervalo. A malta combinava encontrar-se junto ao Emídio [risos]. Tinha sempre muita gente à minha volta.
Só pode ter sido poste quando jogava basquetebol...
Sim, claro. Mas comecei a jogar basquetebol tarde, dos 15 para os 16 anos. Não era um grande jogador. É certo que era muito alto, mas tecnicamente não era muito evoluído. Seria jogador de terceira divisão, não mais do que isso. Também joguei voleibol e andebol, tudo no Francisco de Holanda, que agora chama-se Xico Andebol.
Continuou a fazer desporto durante a faculdade em Coimbra?
Sim. Pratiquei karaté e joguei basquetebol pela Associação Académica, de que fui presidente. Fui convocado para algumas fases finais dos campeonatos nacionais universitários. Acho que ganhei umas três.
Foi para muitos jogos sem dormir? Com diretas?
Às vezes, às vezes... [risos]. Aos 20 anos, faz-se coisas que não se consegue fazer aos 50 anos.
Qual o parentesco que tem, afinal, com o político e matemático Emídio Guerreiro, que chegou a ser secretário-geral do PPD no tempo de Francisco Sá Carneiro? Li várias versões...
Ele era primo direito da minha avó. Conheci-o muito bem. Nos anos 1980, já depois de ele regressar do exílio, passava meio ano em França e meio ano em Portugal. E a partir de 1983 era eu que o ia buscar à estação de Campanhã e levava-o a passear. Levei-o inclusive à minha República em Coimbra, onde esteve até às 2h da manhã, sem ninguém se levantar da mesa, a contar histórias dos maquis [ndr: Resistência Francesa], que ele liderou na luta contra os nazis, e da Guerra Civil espanhola.
O seu pai deu-lhe, então, o nome inspirado no primo republicano?
Não. O meu pai também se chama Emídio Guerreiro. Na minha família somos uns tantos [risos].
Qual o maior legado que o seu primo lhe deixou?
A questão da liberdade, que é fundamental. Precisamos ser livres para podermos ser completos.
Foi uma inspiração para enveredar na vida política?
Não. Ele era um ativista, mas dizia que não tinha jeito nenhum para a política. Eu desde muito novo sempre tive esta particularidade de querer organizar coisas, o que me levou a ser presidente da Associação de Estudantes no liceu em Guimarães e, depois, em Coimbra, fiz parte de muitas secções até ser presidente da Associação Académica.
Inclusive li que foi maestro da Orxestra Pitagórica...
Sim. Aguentaram-me lá quase cinco anos, por isso a coisa não deveria correr mal.
Aguentaram-no dado o talento para a música ou pelas palhaçadas em que alinhava com os colegas?
Pelas duas coisas. Hoje em dia, a Orxestra Pitagórica está mais evoluída, têm baterias e guitarras elétricas. Na minha altura, só tínhamos um acordeão e umas violas para acompanhar os outros instrumentos: cântaros, retretes, autoclismos, regadores e garrafas. Tenho o segundo ano do conservatório de solfejo, mas não me valeu de muito [risos]. Não consegui aprender a tocar viola, para meu grande desgosto. Aprendi a tocar cavaquinho, mas mal conseguia tocar "Ó Rosa arredonda a saia". Foram momentos muito giros.
Começou por entrar no curso de Química, mas depois mudou para Psicologia. Que grande mudança...
E fiz uma MBA em Gestão Estratégica mais recentemente. Quando se entra para a faculdade, ainda não se está firme do que se quer.
Qual foi o seu primeiro trabalho remunerado?
No local onde fiz o meu estágio, numa empresa de informática em Coimbra. Depois fui eleito presidente da Associação Académica de Coimbra, acabei o curso meio ano antes de terminar o mandato e fiquei só a gerir a Associação Académica. Tinha quase 60 funcionários, 22 secções desportivas, muitas atividades. Em 1990, fizemos uma revisão do acordo da empresa, que vinha ainda de 1974/75, o que provocou uma reorganização interna muito grande. Foi muito interessante em termos de aprendizagem.
Tem muitos segredos escondidos da sua vida de boémio nos tempos da universidade?
Foi um período fantástico da minha vida, onde aprendi valores como a amizade e a solidariedade, vivi em duas repúblicas [ndr: "Os Fantasmas" e "Rapó Taxo"]. É uma fase que marca para toda a vida, é importante toda a gente ter, no tempo próprio, essa possibilidade de divertir-se, mas cumprindo o seu papel. Os meus pais só exigiam que eu fizesse a minha parte, por isso tenho dificuldade em lidar com dirigentes estudantis que, perto dos 30 anos, ainda andam a tirar o curso. Fui dirigente da secção de fado, estive na secção de culturismo, fiz tanta coisa... Dispersava-me imenso, mas na altura certa fazia o que tinha de ser feito.
Disse há pouco que praticou também karaté. A que cinto chegou?
Andei lá quase dois anos sempre com o cinto branco, essa é que é a minha originalidade [risos]. Andava lá porque era interessante do ponto de vista da preparação física, dava para jogar melhor basquetebol e futebol. Jogo muito mal futebol, mas conseguia correr mais do que os outros.
Atualmente continua a ter uma atividade física?
Infelizmente vim para o Governo e perdi a agenda no ginásio, andava a fazer duas, três, até quatro vezes por semana, fazia cycling, body pump... A agenda agora é muito difícil. Participo apenas no jogo de futebol semanal que a equipa aqui da Secretaria de Estado faz com a Movijovem. No outro dia, jogámos contra os colegas do Ministério da Agricultura...Mas vou tentar arranjar tempo para regressar como deve ser à atividade física, estou a emagrecer muito e preciso de fazer exercício.
Nasceu na Suíça, mas mudou-se para Guimarães aos seis anos. Qual a sua relação com a cidade?
É a terra onde me revejo, onde fiz toda a escola primária e liceu, onde tenho os meus amigos de infância, onde tenho atividade partidária, é sempre a terra onde gosto de regressar, é sempre aquele arrepio quando começo a descer a A7 para Serzedelo. Na semana passada, fui lá à festa dos 50 anos de um colega meu da quarta classe. Conseguiu reunir mais de 20 antigos colegas. Falámos da professora Luzia, a nossa professora primária. Alguns levaram fotografias, parecemos albaneses [risada].
Levou reguadas e aprendeu os caminhos de ferro?
E os afluentes dos rios... Sempre fui bom aluno, mas levei algumas reguadas, não muitas, mas algumas. Uma vez fomos ao limoeiro da escola e andávamos a jogar à bola com os limões, que deviam ser aproveitados para a cozinha. Mas nunca apanhei reguadas por dar erros ortográficos, mais pelas brincadeiras de grupo.
O que quis ser quando era pequeno?
Com uns 10 ou 13 anos queria ser piloto de corridas de carros. Nunca quis ser aviador, ainda hoje tenho pavor de andar de avião. Para futebolista não tinha jeito, ficou logo arrumado [risada].
A CONTROLAR AS ELEIÇÕES
NA ÁFRICA DO SUL
Em 1994, Emídio Guerreiro inscreveu-se como voluntário para ir para a África do Sul, ao serviço das Nações Unidas, controlar as primeiras eleições livres, não determinadas pelas regras do Apartheid, do país de Nelson Mandela. "Foi a coisa mais fascinante que fiz na vida. Na altura, ninguém queria ir para a África do Sul. Senti que fazia parte de alguma coisa muito importante. Cada vez que assinava, confirmando que naquela urna as eleições tinham sido livres e justas... ainda me arrepio de pensar", afirma o governante. "Fiquei num fim do mundo onde o hotel mais perto, onde fiquei a dormir, era a duas horas de caminho. Para as urnas abrirem às 7h da manhã, tinha de ir para a estrada às 4h00. Recordo-me de estar a chegar à primeira mesa de voto e ver uma fila, de centenas de metros, de pessoas a quererem votar pela primeira vez. Foi brutal", recorda, lembrando também a vez em que, em Joanesburgo, foi comprar um chapéu a uma loja de produtos de caça e, durante o curto tempo em que esteve a escolher o que levar, foram vendidas... 19 armas.
SAIBA QUE
O secretário de Estado do Desporto e da Juventude lida muito mal com a falta de pontualidade. "Em dois anos de funções, cheguei atrasado uma vez. Todos temos agendas muito difíceis, quando começamos a resvalar nos eventos, criamos o caos na nossa vida e na das outras pessoas, é uma questão de respeito", defende Emídio Guerreiro, que tem dificuldade em ter dias de folga ao fim de semana, já que a maior parte dos eventos desportivos realiza-se nessa altura e, claro, não faltam convites. "Folgas? Isso é um mito urbano. Tive cinco dias de férias no verão. Mas ninguém me obrigou a estar aqui, estou a constatar, não a queixar-me", afirma Emídio Guerreiro que, no pouco tempo livre que tem, lê e vai ao cinema. "Se estou a par dos candidatos aos Óscares? Não me faça perguntas difíceis [risos]. O último filme que fui ver acho que é candidato, foi aquele que foi feito ao longo de dez anos [ndr: Boyhood]. Achei bastante piada ao filme, uma ideia gira que se manteve secreta durante este tempo todo."
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Emídio Guerreiro tinha 25 anos quando foi de Coimbra a Macau de comboio, numa viagem de celebração dos 700 anos da Universidade de Coimbra, que fez parte do programa oficial de comemorações e foi aprovada, inclusive, pela Assembleia da República. "A ideia era fazer a ligação por terra entre a universidade mais antiga e a mais recente do mundo lusófono. O reitor da universidade atribuiu-nos uma verba de 500 contos [2500 euros] e lá fomos com um saco de medalhas evocativas dos 700 anos da Universidade de Coimbra, para oferecer nas várias universidades em que iríamos parar ao longo do percurso", recorda Emídio Guerreiro. "Éramos seis e chegámos a Macau com seis dólares no bolso. Gastámos tudo pelo caminho. Felizmente fomos bem acolhidos e não nos deixaram sem nada", conta.
(Entrevista publicada na revista J a 25 de janeiro de 2015)
