
Se adora fazer desporto e é adepto do lema "no pain, no gain", sugerimos-lhe que leia esta entrevista. Hugo Moniz, profissional da área do fitness, propõe uma nova abordagem ao exercício físico, contrapeso de uma época e de uma indústria que promovem a superação dos limites físicos e mentais
Hugo Moniz é personal trainer (PT) numa cadeia internacional de health clubs. Não pretende ser o instrutor bonito e musculado sobre quem as mulheres conversam no balneário. Muito menos aquele que puxa pelos alunos até à última gota de suor. É algo completamente diferente e revolucionário (perante o atual contexto do fitness) o que pretende transmitir aos colegas de profissão e ao público em geral.
Licenciado em Educação Física e Desporto, com mestrado executivo em Gestão Empresarial, Hugo Moniz, 32 anos, passou pelas múltiplas formações que as grandes empresas mundiais de fitness proporcionam até perceber que, por muitos cursos que fizesse, algo não estava bem na profissão que escolheu. Foi estudar mais e do resultado disso nasceu, em parceria com João Moscão e Nuno Pinho, dois colegas com as mesmas ideias, a EXS - Exercise School. Contra o que chamam de "fitness bonito", de consumo fácil, associado aos lemas das grandes marcas como "just do it" ou "no pain, no gain", propõem uma nova abordagem ao exercício físico.
O que a EXS - Exercise School traz de novo ao mercado do fitness?
Não concordamos nada com a ideia hoje genericamente espalhada de que "no pain, no gain" [sem sacrifício/dor não há resultados]. Não faz sentido. Baseamo-nos nas leis do corpo e da física. Não conhecendo o corpo na sua essência, bem com as resistências a que está sujeito diariamente, não podemos atuar sobre ele. Estamos aqui para ajudar os clientes a tornarem-se mais saudáveis, fazerem aquilo que conseguem fazer e não aquilo que nós queremos que eles façam. Primeiro, devemos observar o corpo, ver aquilo de que é capaz e quais as capacidades que consegue ganhar.
Trazem conceitos fraturantes em relação às atuais tendências?
Sim. É uma linha completamente diferente. A escola veio abrir novas janelas no mercado, seguindo o que faz o RTS - Resistance Training Specialist, que é uma escola americana, de que temos a representação para a Europa, com exceção de Inglaterra. Queremos ocupar um espaço que é o da coerência e do respeito pelo corpo.
Hoje em dia, o mais domingueiro dos desportistas quer desafiar os seus limites.
A nossa cultura diz "força! Mais! Aguenta", quando o corpo está a dizer que já rebentou e deu o máximo. Já pensou que as pessoas mais fáceis de treinar são os atletas de alta competição? Eles vivem para o desporto e sabem que têm de dormir 8 a 9 horas por dia, têm treinos agendados, uma alimentação regrada. O seu ambiente é muito mais controlado do que o de uma pessoa que tem de trabalhar, levar os filhos à escola, e depois, no meio disso tudo, ainda fazer exercício físico. Temos todo um universo que não consegue ser controlado, por isso é que o risco ainda é maior.
O que sugerem?
Queremos mostrar o que verdadeiramente deve ser um PT. Um PT tem de conhecer o corpo na totalidade, tem de perceber de física e tomar decisões em prol da melhoria daquele cliente específico. Cada corpo tem as suas especificidades. Hoje, quer colocar-se a tónica na superação, que a mente é mais forte do que o corpo. Queremos mudar um bocadinho o contexto geral do fitness, a nossa missão é torná-lo mais saudável, mais amigo, mais consciente de que os PT são profissionais muito bons e ajudam a ser melhores, mas não numa perspetiva de superação, não é para gritar aos ouvidos do aluno que tem de fazer mais dez repetições.
(...)
Achamos que o mercado de PT não está bem acondicionado. Conto pelos dedos das mãos os PT em que colocava a minha mãe a treinar. E isso é grave! Temos um mercado de 280 milhões de euros de fitness, é uma indústria brutal, com cada vez mais objetivos. O que fazemos? Podemos melhorar onde? Na formação. Não conseguimos lutar contra a indústria, mas contra os maus profissionais.
Como é possível implementar o que defendem numa aula de grupo, em que há 30 ou 40 pessoas para um instrutor?
Tendo um instrutor formado e verdadeiramente conhecedor do corpo humano e das leis que o regem, dentro daquilo que pode manipular, pode fazer melhor e com mais coerência. Mesmo fazendo uma coisa limitada, pelo menos pode fazê-la bem e da forma mais segura possível. Por exemplo, ao quererem tornar os programas pré-coreografados simples para instrutores e praticantes, ignoram por completo a complexidade do corpo humano. Há toda uma desqualificação do mercado, que foi feita em prol da economia.
Ter um PT é caro. Não é para toda a gente.
Temos pessoas que não são ricas, fazem sacrifícios para treinar connosco e dão o seu dinheiro por bem aplicado. Associa-se o PT às pessoas ricas, porque vende-se um produto com base em critérios de aparência e estética. O problema é a saúde não ser transposta para o fitness. Se o PT fosse associado a tratamentos de fisioterapia ou de osteopatia, que são muito mais dispendiosos, já não se colocava a questão de ser para gente rica. O PT só é para os ricos porque existe uma valorização da parte estética e social. É como ir fazer compras a lojas de marca, faz parte de um estatuto social. Se o PT fosse visto na perspetiva das pessoas que chegam aqui quase sem conseguir andar e passado um ou dois meses já andam, então o PT era uma profissão que devia estar enquadrada no Sistema Nacional de Saúde e ser comparticipada. E já não era para ricos, era para as pessoas que quisessem otimizar a sua saúde. Assim é que devia ser. Estamos a falar de um choque cultural que, infelizmente, em Portugal, assenta na atividade física para a estética e não para a saúde. O fisioterapeuta trabalha na área da dor e da doença, nós na prevenção e otimização.
É possível associar as duas coisas: a saúde e a estética?
Eu e os meus colegas achamos que sim. Deveria. Mas, para isso, é preciso saber o que se está a fazer.
O crossfit, que tanto está na moda, parece ser o oposto do que preconizam. Treino altamente intenso, com grandes cargas e sofrimento...
Temos de perceber como preparar um corpo para ir para o crossfit. Não é chegar e entrar no crossfit, é passar por um processo gradual para poder ir, ou não, para o crossfit. Não somos contra nada, somos contra a forma como, muitas vezes, se chega quer ao crossfit quer a uma aula de grupo ou a uma maratona.
O crossfit é uma moda que vai passar?
Acho que sim, mas não vai passar rapidamente porque tem efeitos neuroendócrinos prazerosos. Mas dizer que é saudável só porque dá prazer, então, teríamos de incluir no mesmo grupo a heroína, a cocaína ou os açúcares, por exemplo. Se dissermos que o futebol dá saúde, claro que não! O crossfit, enquanto modalidade desportiva, é a mesma coisa!
O que aconselha a uma pessoa que não tenha dinheiro para ter um PT e quer começar a fazer desporto de forma regular, mais saudável e mais adequado.
Baixar as intensidades, ter uma boa alimentação, descansar bem, exercitar-se sem dor. É importante as pessoas mexerem-se, mas também estarem cada vez mas seguras para se mexerem. Há estudos que indicam que quanto mais um corpo passar por processos que não sintam dor, melhor vai ser a sua produção motora.
Não acham que descobriram a pólvora, pois não?
Não [risos]. Recorremos foi a fontes que estudam a física aplicada ao corpo humano. E sem marketing. Queremos uma análise crua do que acontece no corpo e na física. E há pontos em comum. Quando se lê um livro de biomecânica tem de se saber interpretá-lo.
De forma sintética, qual a grande mensagem que quer deixar?
Que os PT estão cada vez mais conscientes da importância de conhecerem mais e melhor o corpo. E que o corpo sofre com as situações diárias. Temos de adaptar cada vez mais o exercício a um contexto específico, porque não dá tudo para todos! Se dá tudo para todos, dá asneira.
AULAS DE GRUPO É COMO IR À DISCOTECA
Hugo Moniz defende que a maioria das aulas de grupo dos ginásios têm características muito mais parecidas com uma discoteca do que com um contexto de estimulação motora. "Há movimento. Na discoteca também! Há música a altos berros, que provoca a trepidação em centros nervosos cerebrais, que vão afetar a motricidade. Na discoteca também! Só não há álcool e drogas. Quer dizer, drogas, às vezes, também há. Há diversão e um líder. Na discoteca é o DJ, nas aulas de grupo é o coreógrafo. Ser profissional do exercício não é coreografar", afirma.
SAIBA QUE
"Os alongamentos não ajudam em nada. Puxar o braço para além daquilo que uma pessoa controla só prejudica", defende Hugo Moniz. "Nós limitamo-nos a conhecer o corpo, as leis da física e a aplicá-las", acrescenta para sustentar a base científica dos mitos que desfaz. "O treino cardiovascular para a perda de calorias é outro desses mitos. Acima dos 25 minutos há tendencialmente muito menor benefício do que risco. Para a perda de calorias, deve fazer-se treino de força. O que é generalizado e está nos livros, com base em amostras médias, não se pode aplicar ao contexto da saúde no momento. Esqueceram-se de que as adaptações fisiológicas são influenciadas pelo estado do corpo, ou seja, não são as mesmas quando é analisada a parte bioquímica do que acontece no corpo face ao exercício", explica, referindo também o mito da piscina. "Parece que todos os problemas ortopédicos são resolvidos na piscina. Mas a piscina não é remédio para tudo e nem sempre faz bem."
700
A EXS - Exercise School existe há um ano. É uma escola certificada pela DGERT - Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho e, por esta via, também pelo IPDJ - Instituto Português do Desporto e da Juventude, contando créditos para a carteira profissional de Técnico de Educação Física. "Até ao momento passaram por cá 70 alunos. Se cada um deles tiver uma média de dez clientes, isso quer dizer que já chegámos a 700 pessoas", afirma Hugo Moniz. "Há uma escola que segue um pouco a nossa linha. Somos uma gota no mercado global, mas a crescer. Queremos ocupar um espaço que não existe, ninguém dá o tipo de formação que nós damos", acrescenta. A próxima edição do curso, em setembro, já está esgotada.
(entrevista publicada na revista J de 28 de junho de 2015)
