Por elas. Por todas nós

Sónia Carneiro

Tópicos

LIGA-TE - Artigo de opinião de Sónia Careiro, diretora executiva da Liga.

E de repente somos impactados por uma imagem - a capa do jornal "Marca" de 17 de agosto - com a manchete "Qué va a ser de ellas?" ( "O que vai ser delas?") O que vai ser das desportistas de Cabul? O que vai ser das mulheres afegãs?

A azáfama do quotidiano a que cada um de nós se submete faz com que, muitas vezes, demasiadas vezes, sejamos vítimas de inocências e ingenuidades que a História já se encarregou de demonstrar serem (demasiado) perigosas.

Inocentes por acreditarmos que as mil tarefas que diária e rotineiramente vamos executando têm alguma importância, e ingénuos por não duvidarmos, nem sequer por um segundo, que os direitos fundamentais, que damos por garantidos, nunca nos fugirão. É assim que a maioria de nós vai vivendo.

E muitas vezes, mais uma vez demasiadas, só nos apercebemos do perigo que isso representa quando a vida se encarrega de nos demonstrar que, básicas, são as coisas que tendemos a valorizar e, importantes, são aqueles direitos e liberdades que tendemos a desvalorizar. Foi assim, por exemplo, com a covid-19, que, sem aviso prévio, nos fez voltar a valorizar coisas que nem sequer sonhávamos poderem fugir.

Como se tal não tivesse sido suficiente, as imagens do domínio talibã no Afeganistão que hoje nos chegam através dos ecrãs voltam-nos a fazer refletir sobre a importância de temas que se nos afiguram garantidos... dessas imagens, surge uma nova oportunidade para repensarmos aquilo que, realmente, deve merecer as nossas energias.

E não o somos por termos aquele ou o outro bem material, somo-lo porque podemos passear num parque. Somo-lo porque os nossos sonhos, com maior ou menor dificuldade, estarão sempre ao alcance da nossa vontade. Somo-lo, também, porque podemos ir a um estádio apoiar a nossa equipa sempre que quisermos. Somo-lo porque podemos jogar ténis, futebol ou voleibol. Somo-lo porque podemos trabalhar fora de casa. Somo-lo porque podemos mostrar os ombros. Somo-lo, sobretudo, porque podemos ter opinião. Verbalizar a nossa opinião e ser respeitada como pessoa e como mulher. E uma parte das mulheres do mundo perdeu esse direito!

Khalida Popal é uma das caras do movimento que, durante a última década, pretendeu dar voz às mulheres do Afeganistão através do futebol, tendo feito parte da histórica primeira seleção feminina do país, criada em 2007. Ouvi-la, esta semana, apelar às suas compatriotas que para defesa das suas vidas "eliminem as páginas nas redes sociais, fotografias, fujam, escondam-se, e se possível, queimem e livrem-se do equipamento da seleção" abana todos os alicerces fundamentais existentes na redoma deste nosso mundo "evoluído" e relembra-nos que nunca é hora de deixarmos de valorizar o mais básico dos direitos que tomamos como elementares.

Como será que viveríamos um jogo de futebol da nossa equipa se soubéssemos que seria a última vez que poderíamos estar naquelas bancadas? O desafio que hoje vos convidamos a aceitar: não desperdicem a oportunidade de viver cada jogo como se de uma festa se tratasse, pois só assim, positivo, é que o futebol, como a vida, valerá a pena! Vão ao futebol, vão com as vossas mães, as vossas mulheres, as vossas filhas...
É um direito que, afinal, não é tão garantido como até há pouco tempo preconizávamos.