O mundo real

Sónia Carneiro

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DE SALTO NA BOLA - Opinião de Sónia Carneiro

A frustração do futebol profissional com a turbulência política que o país atravessa é explicada pela constatação de mais um atraso nas medidas que o setor há muito reclama. O Presidente Pinto da Costa recordou esta semana algumas, como o IVA dos bilhetes - que teima em não voltar à taxa pré-troika - ou a forma de distribuição dos proveitos das apostas desportivas que, naturalmente, deveria privilegiar as entidades que, com o seu trabalho, tornam a atividade possível: os clubes, os atletas e os técnicos.

Com a irresponsável condução do país para um cenário - devidamente antecipado pelo Presidente da República! - de dissolução parlamentar e consequente queda de um Governo ainda a meio do mandato, a reprovação do Orçamento do Estado condenou o país a reexecutar um orçamento pandémico em duodécimos e a adiar as medidas que Portugal reclama, para retomar uma trajetória de progresso. Estou convencida de que se tratou de um momento de desconexão entre o povo e os seus representantes, da esquerda à direita parlamentar.

O cartão do adepto, agora em vias de ser remetido à trituradora, é outro exemplo desta dessintonia. Percebendo, subscrevendo e até reclamando do Parlamento a criação de mecanismos de prevenção de comportamentos violentos, racistas, xenófobos ou intolerantes, os adeptos - que também são cidadãos - e os clubes que os têm por apoiantes estavam idealmente colocados para participar na solução. E, auscultados mas não escutados, os clubes e as associações de adeptos manifestaram aos parlamentares que esta não era a solução, já experimentada, sem sucesso, em outras longitudes. Viu-se, agora, que tinham razão.

Neste fim de mandato do Executivo, ultimam-se alterações ao Regime Jurídico das Sociedades Desportivas e abre-se o caminho para a revisão do das Federações Desportivas. É determinante que os decisores políticos recordem a lição e recorram à experiência acumulada de quem, no dia-a-dia, convive com estes diplomas, conhece bem as suas limitações e lhes consegue apontar falhas, de forma sustentada nos factos - e no Direito.

Esta audição de sensibilidades deve ter lugar, como o Governo cessante teve frequentemente a prudência de fazer, em grupos de trabalho técnicos e em reuniões bilaterais, mas não deve ficar por aí. É necessário levar para o seio do debate parlamentar quem conhece as dificuldades do desporto - em particular, profissional - e isso só se alcança com o aliciamento para a intervenção cívica, política e partidária de quem conhece o mundo real.

O desporto precisa da política, mas talvez seja chegado o momento de perceber que a política do desporto, para ser eficaz, precisa dos profissionais do desporto.