Belenenses-Benfica: faltou poder e antecipação

Belenenses-Benfica: faltou poder e antecipação
Sónia Carneiro

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A opinião de Sónia Carneiro, ex-diretora executiva coordenadora da Liga, em relação ao polémico Belenenses-Benfica.

Os factos ocorridos no Estádio do Jamor, na noite de sábado passada, deixam um amargo de boca a todos os que amam este desporto. Tendo, durante anos, pleiteado pela integridade das competições e pela valorização da Liga Portugal, choca-me a desinformação que se vive. A equipa do Belenenses entrou em campo não porque o Regulamento a obrigue a tal, mas sim porque não houve quem fosse capaz de antecipar os contornos negros do que se ia passar.

O Plano Específico para o Futebol Profissional/Covid, elaborado ao abrigo da disposição transitória 1.ª do Regulamento das Competições (RC), logo na sua introdução esclarece que "contempla as orientações relativas à organização dos jogos das competições profissionais da época desportiva 2021/22, que integram as normas e procedimentos estabelecidos pela Direção-Geral da Saúde."

No seu ponto 12 diz-se "1. O jogador com covid-19 é equiparado a jogador portador de doença, não havendo qualquer exceção; 2. Em caso de jogadores com covid-19, serão sempre aplicadas as leis de jogo, nomeadamente, a Lei 3 das Leis de jogo (n.º mínimo de 7 jogadores, com 1 guarda-redes e 1 capitão)."

Aquando da elaboração do referido plano vigorava, e tanto quanto sei ainda vigora, a orientação 36/2020 da DGS, que contempla, nos seus pontos 26 a 29, as regras. Em resumo, os jogadores infetados são isolados e os demais são submetidos a testes. Estando negativos, podem ir a jogo. Algo de muito estranho, e ainda oculto, (talvez a qualquer momento se venha a saber o que determinou decisão distinta da habitual) aconteceu e o delegado de saúde local determinou o isolamento da quase totalidade da equipa.

A autoridade de saúde local ou desconhece as regras para o futebol, pontualmente a época passada isso foi acontecendo e tiveram de ser informados pela entidade que gere o futebol, ou, reitero, desconhecemos nós o que se terá passado em termos de contactos e convivência extra treino, extra estágios e extra jogos da equipa do Belenenses, e a autoridade de saúde local viu-se obrigada a determinar o isolamento coletivo.

O que sei é que deveria ter havido coragem para impedir que, nestas condições, aquele apito inicial do árbitro tivesse acontecido. E não me venham com regulamentos ou datas de calendário para equipas que estão nas competições todas. Qualquer sacrifício adicional seria menos penoso do que aquele triste espetáculo e, sobretudo, protegeria a integridade e a valorização das competições.

Lembro-me que, no futebol profissional, a primeira regra que se ensinava a todos agentes, funcionários, delegados, colaboradores e dirigentes é "gerir as normas e os regulamentos com bom senso". Não houve bom senso, não houve informação, não houve esclarecimento.