Abdicar de ter poder

Sónia Carneiro

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DE SALTO NA BOLA - Um artigo de opinião de Sónia Carneiro.

Os clubes em Assembleia Geral (AG) dotaram a Direção da Liga da possibilidade de, a qualquer momento, enquanto se viver em situação de pandemia, esta poder tomar decisões quanto ao plano de organização de jogos. Assim, aprovaram a disposição transitória n.º 1 do Regulamento de Competições (RC) na qual consta que "em consequência das limitações impostas pela resposta à pandemia de CoViD-19, (...), os jogos da época desportiva 2021-22 serão organizados de acordo com as regras escritas no Plano de Retoma Progressiva das Competições, aprovado pela Direção Geral de Saúde (DGS) e vigente em cada momento e nos termos dos comunicados oficiais da Liga Portugal que venham a ser emitidos em desenvolvimento daquelas regras, bem como das normas que venham a ser emitidas pela DGS".

Ou seja, a Liga tem carta branca dos clubes para alterar as regras do Plano específico do futebol profissional para a organização de jogos, bastando para isso emitir um comunicado oficial adaptando as regras primitivamente definidas. E a verdade é que já depois de iniciar a época, a Liga, por duas vezes, alterou as regras de organização de jogos ao abrigo da supra citada norma.

É agora, no mínimo, curioso que apesar dos escritos de alguns dos seus diretores executivos e do resultado das reuniões com os parceiros do diálogo social que esta tenha entendido não lançar mão desse poder e convocar uma assembleia geral para reclamar aos clubes uma decisão que a sua Direção podia, querendo, ter exercido de per si.

Dizem os comunicados de imprensa que a alteração em AG visará mais do que o Plano (onde se consagrou o mínimo de 7 jogadores, um capitão e um guarda- redes para a equipa poder ir a jogo), prender-se-á com a alteração ao art.º 46 do Regulamento das Competições, pedindo a Liga aos clubes um mecanismo de alargamento do seu poder quanto ao conceito de força maior. Faz sentido? Faz!

No entanto, não basta ter os mecanismos, é preciso querer usá-los. Se os clubes munirem a Liga de tal ferramenta no regulamento é preciso ter coragem para a usar. Ou então, estará aberta a caixa de pandora. Um qualquer diretor de competições sempre saberá que, para além de tudo o que é regulamentar, um jogo de futebol são onze contra onze e no fim, ganha quem marca mais golos.

Quem muito sabe de competições, da sua organização, e da gestão do governo do futebol é o Presidente da Federação, Dr. Fernando Gomes. Na sua entrevista no âmbito das comemorações dos 10 anos de Presidência ficou muito claro que foram 10 anos de liderança, com aumento significativo do património e repleto de sucessos e títulos e nem por isso perdeu a forma genuína de ser e a humildade. Chapeau Presidente.