A vida dos treinadores: do Olimpo a anti-heróis

A vida dos treinadores: do Olimpo a anti-heróis
Sónia Carneiro

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DE SALTO NA BOLA - Opinião de Sónia Carneiro

Diz a história que Quíron foi o principal treinador de Hércules, o famoso herói da mitologia grega conhecido pela sua força física e bravura. Quíron terá sido o principal responsável pela exponenciação de tais características, criatura que era imortal antes da flecha de Hércules, com a ponta embebida em veneno, lhe acertar e que lhe causar uma ferida que nunca mais sarou. Quíron acabou por optar pela morte e recebeu uma constelação em sua homenagem, o Centauro, ou Sagitário, como é mais conhecida.

Ora a vida dos treinadores da atualidade não é muito diferente, por um tempo são Deuses do Olimpo e pouco depois estão "mortos" pelas flechas envenenadas dos resultados ou de uma qualquer conspiração, mais ou menos evidente. Serão sempre eles o elo mais fraco, mas aqueles em cima dos quais caem as maiores responsabilidades, expectativas e esperanças.

Não deixa de ser, porém, curioso que a normalização da facilidade com que os treinadores, qual camisa usada do dia, são dispensados ao final de meia dúzia de jornadas sem sucesso, ganha os contornos contrários, se por algum motivo são estes, por sua iniciativa, a abandonar os seus projetos na busca de melhores condições. Nesse momento enchem-se as capas de jornal ou os fóruns de adeptos atraiçoados a acusá-los de serem desertores, judas ou infiéis.

A era da informação, exponenciada pelo avanço digital, transformou hoje os treinadores nos principais porta-vozes dos clubes e da sua identidade, fruto do alcance das várias dezenas de aparições que lhes são solicitadas ao longo de uma temporada. À medida que escalamos a dimensão social de cada equipa, observamos casos em que muitos dos treinadores têm hoje mais exposição pública e tempo de antena nos órgãos de comunicação social que qualquer outra personalidade do país.

Não será uma estratégia óbvia, num futebol marcado por uma gestão cada vez mais profissional, tentar estabilizar a principal figura mediática da nossa organização, estendendo pelo máximo tempo possível a coerência de mensagens externas?

A realidade de hoje faz-nos assistir a uma constante e instável troca de treinadores entre equipas do mesmo escalão, originando nos próprios adeptos menos atentos dúvidas na identificação das cores ou do símbolo da sua equipa, tanta é a rapidez como hoje a nossa principal referência está no nosso banco e logo de seguida no dos adversários.

Encartados, ou nem por isso, os treinadores portugueses, cá dentro ou além-fronteiras, têm demonstrado uma competência para além do expectável face à instabilidade desta profissão, sendo tempo de refletir se o esteio duma equipa pode ser assim descartável sem consequências regulamentares, ao contrário daquilo que já acontece em outros países onde a existência de limitações normativas já são uma realidade