Treinar com menos de 10 jogadores para depois jogar cinco contra cinco

Treinar com menos de 10 jogadores para depois jogar cinco contra cinco
Rui Alves

Tópicos

Após a derrota com o Benfica por expressivos 75-119, Hugo Salgado, treinador do Terceira Basket, na análise ao jogo, contou o seguinte: "Dos mais de 223 treinos que tivemos esta temporada, apenas em 55 contei com 10 jogadores para treinar". Não é a primeira vez que ouvimos lamentos desta natureza, pois é, de facto, um problema comum a muitas equipas e, na minha opinião, merece uma reflexão cuidada e muito para além destas linhas que vos deixo

O treino em basquetebol não se resume a replicar o jogo de 5x5, mesmo no alto rendimento. Aliás, a utilização no treino do 5x5 chega a ser contraproducente no desenvolvimento da técnica e tática individual, por exemplo. No entanto, quem compete em 5x5 não pode andar a treinar sistematicamente em 4x4 ou 3x3. Na alta competição, conforme o exemplo do Terceira Basket, ainda se torna mais complicado.

Este problema também resulta do processo de construção de uma equipa, pois quem começa uma época com 12 jogadores, qualquer que seja o escalão ou nível competitivo, muitas vezes ao longo da época vai chegar ao treino e ter nove, oito ou até menos atletas disponíveis. Tanto pior se não houver um departamento clínico, se os transportes dependerem dos pais ou se não existir conciliação plena entre os horários dos treinos e os dos emprego/escola. Então e porque não utilizar os jogadores da formação para garantir número suficiente para treinar?

Primeiro, há clubes do topo do nosso basquetebol cujos atletas sub-18 ou sub-19 não apresentam nível suficiente para conseguirem treinar com as equipas seniores. É uma triste realidade, mas, por vezes, são tão fracos que essa experiência traz mais prejuízo que benefício. Para todos.

Depois há os que simplesmente não querem, o que deixa completamente loucos os jogadores veteranos, pois, no tempo deles, davam tudo para poderem carregar as bolas e águas dos seniores, quanto mais treinar com eles... E os "miúdos" de hoje não querem, porque não gostam de treinar, não gostam do sacrifício e de sair da zona confortável, não trocam a oportunidade de jogar uns minutos na Liga pelos 35 minutos no jogo de sub-18 do costume.

Há os atletas que até arriscam, mas têm de ter uma personalidade realmente forte, porque a falta de paciência é generalizada... O dirigente espera que ele tenha uma postura profissional a troco de nada ou quase nada. O treinador não tem tempo para lhe ensinar o que ele devia ter aprendido nos escalões jovens, esquecendo-se que há uma parte importante de formação na tarefa de incorporar um jogador mais novo numa dinâmica de equipa sénior. E os colegas são, tendencialmente, bastante cruéis. Se percebem que o jovem não acrescenta valor à equipa ou se se sentem ameaçados pela sua qualidade, não lhe vão fazer a vida fácil.

Por último, porque o que acontece em muitas das equipas que não têm 10 jogadores para treinar é que as faltas aos treinos refletem a perda de compromisso de alguns jogadores menos ou nada utilizados, cumpre ao treinador fazer uma gestão adequada. Por um lado, perceber as expectativas e definir papéis e objetivos individuais para os seus jogadores. Por outro lado, perceber que, ao dar alguns minutos de jogo em alturas menos decisivas das partidas, pode estar a assegurar a qualidade de treino da semana seguinte.

Rui Alves, treinador de basquetebol