Surpreendente só para quem não viu: como a Oliveirense se fez "grande" até ao "bi"

Surpreendente só para quem não viu: como a Oliveirense se fez "grande" até ao "bi"
Rui Alves, treinador de basquetebol

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Depois de um título inédito, alcançado há um ano no Dragão, houve um bicampeonato inédito obtido na Luz. Na próxima época chega a concorrência do Sporting

A União Desportiva Oliveirense é a campeã nacional de basquetebol. Aliás, é bicampeã. Convençam-se disso de uma vez por todas! E respeitem. Terminou a época com um balanço de 38 vitórias e 4 derrotas na Liga Placard, foi a equipa que, em média, mais pontos marcou por jogo (88,5) e a que menos sofreu (72,9). Acabou líder da classificação na primeira fase, na segunda fase e, no play-off, deixou pelo caminho Illiabum, Ovarense e fez ontem a festa na Luz perante o Benfica.

Não há quem possa pôr em causa a justiça de mais este campeonato embora seja difícil para muitos de compreender, pois vivemos um momento em que os grandes clubes estão a investir nas modalidades de pavilhão e fazem a contabilidade desses títulos como prémio de consolação para os seus desaires futebolísticos. Mas atenção, desengane-se quem pensa que a Oliveirense não é um grande clube.

A receita de mais um sucesso assenta em aspetos que são simples de enumerar, mas bastante difíceis de levar à prática. Tudo começa numa direção experiente e estável. Na verdade, estabilidade é um enorme fator de sucesso a diferentes níveis e a Oliveirense tirou partido disso. Certamente com muito custo, manteve o treinador e o núcleo duro dos jogadores da época anterior. As saídas de Arnette Hallman, Quintrell Thomas, Eduardo Guimarães e João Abreu foram bem preenchidas com as entradas de Thomas De Thaey, Marko Loncovic, André Bessa e Francisco Albergaria. Se é verdade que sem ovos não se fazem omoletes, sem dinheiro não se compram os ovos... e presumo que o orçamento da Oliveirense esteja mais próximo dos rivais Benfica e FC Porto do que de clubes como o Illiabum ou Esgueira.

Desta receita de sucesso fazem ainda parte os adeptos, a cidade, o município, as gentes de Oliveira de Azeméis que acompanharam a equipa para todo o lado. Incansáveis no apoio que tantas vezes ajuda, quer animando, quer responsabilizando, quer mesmo pressionando. Construir uma dinâmica de vitória é fantástico porque é um ciclo que, ora contagia de dentro do campo para as bancadas, ora das bancadas para a equipa.

Acho que é uma característica muito portuguesa esta de falarmos mal de alguma coisa para conseguir elogiar outra. Isto porque fomos lendo críticas ao Benfica ao longo desta final e, algumas delas, bastante injustas para com o seu treinador Carlos Lisboa. É com ligeireza que se questionam as opções de utilização dos jogadores e, os mais "entendidos", até conseguiam estratégias muito melhores para parar o bloqueio direto... Mas poucos reconhecem a evolução da equipa desde que Carlos Lisboa assumiu o seu comando em março, sem ter escolhido um jogador sequer. Para mim, é claro: a Oliveirense ganhou porque foi a melhor equipa e tinha melhores jogadores.

Outra das forças da Oliveirense foi o seu discurso, assumindo-se para fora como um "pequeno" que quer incomodar os "grandes", que quer surpreender, que tem de estar pronto para lutar contra tudo e contra todos. É uma forma de comunicar inteligente e consegue ajudar a mobilizar mais e mais adeptos... Mas, para quem percebe do jogo, está claro que a Oliveirense é "grande" e a conquista do campeonato e do bicampeonato não são fruto da sorte nem são feitos irrepetíveis. Aliás, este discurso volta a renovar a sua validade, pois com a entrada do Sporting na próxima época lá deixa a Oliveirense de ser favorita... até poder conquistar o tri. Será?