Quando a política é igual ao desporto

Quando a política é igual ao desporto
Rui Alves

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Uma noite de rescaldo de eleições não é muito diferente da análise à conquista de um campeonato

Antigamente, todos os partidos ganhavam, mas agora é muito diferente, ou não... pois passaram a definir-se objetivos por patamares de desempenho e assim sempre conseguem ganhar alguma coisa. No desporto chamam-lhes de vitórias morais, que é uma espécie de fracasso, mas com atenuantes, porque há uma desculpa qualquer, normalmente de causalidade externa, que originou o insucesso. Associada aos objetivos está a gestão das expectativas, outra forma de vencer alguma coisa; se diziam que íamos ser sextos e acabamos quintos, é porque não foi assim tão mau.

Na noite eleitoral de ontem, em particular, a abstenção bateu recordes e foi o facto mais comentado. Também no desporto estamos habituados a isso. As pessoas que não vão votar são as mesmas que passam o ano a criticar o desempenho da sua equipa, que querem que o treinador seja despedido todas as semanas, mas que não pagam as quotas de sócio há três anos, já não vão ver um jogo há mais de dois e nunca foram a uma assembleia geral sequer. Criticam tudo e todos, mas alheiam-se de participar ou contribuir. Ainda sobre a abstenção, ou sobre um penálti por assinalar em Setúbal, claro que a maior fatia de responsabilidade tem de ser dos desgraçados dos jornalistas...

Depois também há os comentadores, que aprendi a respeitar, pois os que dizem coisas com interesse são pessoas que investem tempo em estudar e a preparar-se. Como em tudo na vida, também há os outros, cujo principal objetivo é o de fazer sangue à primeira sondagem, ou ao primeiro "frango".

Outro momento típico das celebrações, clubísticas ou partidárias, é quando alguém se lembra de estragar o momento da comemoração e pedir ao líder: "Nas legislativas vai ter de ser maioria absoluta". Que é como quem diz: "Ó mister, para o ano vai ter de ser o campeonato e a taça".

Quem venceu as eleições saiu para a rua a festejar, com o mesmo sentimento de quem ganhou um campeonato. Quem realmente sentiu que perdeu, sofre. Sofre pelas expectativas goradas, pelo tempo que empenhou e pelas pessoas que conseguiu comprometer para o projeto. Temos ainda o hábito de sofrer pela visibilidade pública do fracasso e das suas implicações no futuro. Mas nesse caso é um exagero, pois da mesma forma que não magnificamos o sucesso, também não perdemos tempo a memorizar quem ficou em terceiro lugar numas eleições ou num campeonato de qualquer modalidade.

Há um aspeto em que a competição político-partidária pode ser exemplo para o desporto, que é o da lealdade até ao fim. O líder que aparece para dar a cara e assumir uma derrota, de semblante carregado, é normalmente acompanhado por fiéis seguidores e apoiantes que naquele momento não o abandonam. Num gesto mais ou menos sincero, a verdade é que o líder não sofre a solidão da derrota que habitualmente um treinador sofre. Nós, treinadores, vamos dizendo que quando a equipa ganha, ganhamos todos, e quando uma equipa perde, perco eu, mas a verdade é que quem nos abandona nesse momento não merecia fazer parte da equipa.

Rui Alves, treinador de basquetebol