O que separa um mero jogo de uma escola de valores

O que separa um mero jogo de uma escola de valores
Rui Alves

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A forma como, na última quinta-feira, os adeptos da Ovarense aplaudiram de pé a sua equipa e a acarinharam para lá do apito final, após a eliminação no play-off, foi arrepiante

Tenho a felicidade do basquetebol já me ter proporcionado inúmeras experiências marcantes, principalmente enquanto treinador, mas também como um comum adepto. Dessa coleção fazem parte, por exemplo, um jogo do Panathinaikos a contar para a Euroliga na arena do Estádio Olímpico de Atenas, um ambiente tão incrível quanto "descontrolado".

Outro exemplo de há uns anos, muito menos intimidador, foi o que vivi em Santiago de Compostela, onde a equipa do Obradoiro, da Liga ACB, perdeu o último jogo em casa, na última jornada da fase regular, mas conseguiu garantir a manutenção e foi ovacionada mais de meia hora, com jogadores e equipa técnica, quais atores de teatro, a terem de regressar várias vezes do balneário para agradecer o apoio do público.

Ainda neste fim de semana aconteceram situações semelhantes em Manresa e Badalona. Recordo-me, como se fosse agora, de naquele momento que presenciei em Santiago, me ter interrogado se algum dia ia ter a oportunidade de viver algo semelhante no basquetebol português... e isso aconteceu na última quinta-feira!

Nos quartos de final do play-off da Liga Placard, a campeã Oliveirense foi implacável em sua casa e venceu os dois primeiros jogos da série contra a Ovarense por vantagens no marcador acima dos 20 pontos. A equipa de Ovar, para sobreviver e adiar a decisão no dérbi, via-se forçada a vencer em sua casa... Mas a equipa de Oliveira de Azeméis continuava inspiradíssima e não deu a mínima hipótese, desde a bola ao ar, acabando o primeiro quarto a vencer 14-32.

Talvez o normal fosse o baixar de braços da Ovarense face ao poderio dos seus adversários, face à frustração acumulada do resultado e até eventualmente com a satisfação do dever cumprido pela excelente fase regular realizada... No entanto, a Ovarense não desistiu até à última posse de bola daquele jogo. E os adeptos? Bem, talvez o normal fosse abandonarem mais cedo a arena para não assistirem à "festa" dos vizinhos de Azeméis ou resignarem-se ou ainda começarem a pedir responsabilidades ao treinador ou presidente... Mas não, a verdade é que nos últimos minutos de jogo os adeptos da Ovarense aplaudiram de pé a sua equipa e acarinharam-na bem para lá do apito final, num momento absolutamente arrepiante.

Com o final da época, chegam ao fim os diferentes campeonatos e disputam-se as fases finais nacionais. Ao som do "We are the champions" dos Queen coroam-se os vencedores e vai-se dizendo que o segundo classificado é o primeiro dos últimos... Realmente é preciso ser conhecedor da modalidade para dar valor ao desempenho e não apenas ao produto final e é pena que nesse aspeto hajam poucas Ovarenses e Oliveirenses. Nas redes sociais, mesmo nos escalões de formação, abundam os elogios aos primeiros e ignoram-se feitos, alguns deles extraordinários, por parte de atletas, treinadores e equipas que são vencedores, mas que não figuram no pódio.

Para terminar, porque a mim nunca me passarão despercebidas estas atitudes, elogiar a postura dos treinadores Nuno Manarte e Moncho López que prontamente assumiram que os seus adversários foram superiores e justos vencedores na sua série. É verdade, tal como disse Bruno Lage, que isto é só um jogo... Mas quando se tem estes adeptos e estes treinadores, o mero jogo passa a ser uma escola de valores que são exemplos fantásticos para todos. Venha de lá essa final do play-off para continuarmos a aprender a saber estar com a Oliveirense e o Benfica.

Rui Alves, treinador de basquetebol