Na mente de um protagonista da "Copa del Rey" de 2019

Na mente de um protagonista da "Copa del Rey" de 2019

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Sergio Llull ajudou o Real Madrid a forçar o prolongamento na final diante o Barcelona, num jogo de desfecho absolutamente dramático e que pendeu para os blaugrana.

Estou sentado no banco e há muitas pessoas a falar à minha volta. Sinto o suor a escorrer-me pelas fontes e tenho o coração aos saltos... Tum-tum, tum-tum... Espreito para o marcador lá de cima pelo canto do olho e pergunto-me como deixámos os tipos do FC Barcelona nos passarem à frente se ainda há bem pouco tempo tínhamos uma vantagem de 17 pontos. 75-77 com 4,3 segundos para jogar... Temos agora a posse de bola, menos mal... Aqui em Madrid, na nossa casa, queremos muito ganhar esta Taça do Rei.

Parece que o "coach" vai dar-me a responsabilidade deste último lançamento, fico orgulhoso com isso e tenho toda a confiança do mundo... Afinal de contas, dos meus 31 anos de vida, 15 passei-os no Real onde já ganhei cinco Ligas, cinco Taças destas, quatro Supertaças e duas Euroligas... Pela seleção espanhola já ganhei medalhas em Europeus e nos Jogos Olímpicos e, em termos de prémios individuais, de MVP a cinco ideal, a lista é felizmente extensa. Mas isso de nada serve neste momento. De facto, há momentos no jogo em que não há passado nem futuro. Este é um desses.

Enquanto vou interpretando os riscos que o treinador desenha na prancheta, penso que dos nove pontos que levo marcados hoje. Nenhum foi de lançamento de dois pontos, aliás levo 4 lançamentos falhados de dois pontos nesta altura... Agora basta-me marcar de dois para levar o jogo para prolongamento. O "coach" vai pôr-me a repor a bola em jogo, o que é muito inteligente, na medida em que habitualmente o defensor do repositor relaxa no momento da entrada da bola e dá-me então a oportunidade de a ir buscar à mão de quem vou passar e decidir como finalizar. Sinto o coração outra vez... Tum-tum, tum-tum... Isso e a dor na cabeça onde há pouco fui cosido por ter sido atingido por um cotovelo numa entrada para o cesto, mas agora não importa.

Acabou o desconto de tempo, levanto-me, damos o grito e entramos em campo entre incentivos dos meus companheiros e dos adeptos. O árbitro entrega-me a bola, eu olho na direção onde não quero passar (para fintar) e passo ao Gustavo [Ayón], indo imediatamente buscar-lhe a bola à mão. Tenho 2,7 segundos. Tal como queríamos, provocamos uma troca defensiva e o [Pierre] Oriola veio tentar "apanhar-me". Só que fui mais rápido, passei por ele, parei a um tempo e lancei de dois... 13 000 pessoas... Tum-tum, tum-tum... O mundo fica em suspenso e nunca a hashtag da "Copa" fez tanto sentido: #LoUnicoQueImporta... A tabela ilumina-se de vermelho forte indicando o final do tempo de jogo, mas a bola ainda vai no ar, perseguida por 13 000 almas no local e uns bons milhões espalhados pelos 141 países de quatro continentes que assistem em direto pela televisão. Tum-tum, tum-tum... ENTROU! E uma explosão aconteceu dentro de mim e de praticamente toda a gente naquela arena, porque mesmo os fanáticos do Barça não se importam de ver mais cinco minutos de um prolongamento deste jogo espetacular.

Entre abraços e festejos, regresso ao banco e levanto as alças da minha t-shirt para todos verem bem o nome que carrego nas costas: Llull.

Nota: o FC Barcelona acabou por vencer a "Copa del Rey" no prolongamento, por 93-94, num final absolutamente dramático e que merece muito ser visto.

Rui Alves, treinador de basquetebol