Quando se joga mais do que se treina

Quando se joga mais do que se treina
Rui Alves

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As quatro jornadas que restam da fase regular da Liga Portuguesa de basquetebol vão discutir-se em apenas nove dias, algo invulgar na nossa realidade

A primeira fase da Liga Portuguesa de basquetebol termina no próximo fim de semana com a particularidade das últimas quatro jornadas estarem a ser disputadas num espaço de apenas nove dias. Se o tema dos calendários competitivos normalmente gera interesse e discussão, a marcação de quatro jogos em nove dias tem, naturalmente, dado que falar.

FIFA, FIBA, NBA e companhia obtêm dos jogos que organizam receitas brutais, muito graças a direitos de imagem e transmissões televisivas, pelo que não é de estranhar que, por eles, quantos mais jogos melhor. Já no contexto do basquetebol nacional, os dirigentes têm o pensamento oposto, ou seja, cada jogo representa uma despesa, independentemente de ser em casa ou fora. Portanto, quanto menos jogos e mais curta for a época melhor.

No que aos jogadores diz respeito, eles preferem sempre jogar a treinar, embora sejam cada vez mais conscientes que o seu corpo tem limites que precisam ser respeitados. Também os treinadores têm sentimentos ambíguos, pois se o jogo é a expressão máxima do seu trabalho, também sabem que a treinar e a preparar os jogos é que conseguem obter o máximo rendimento e cumprir o seu objetivo de ganhar.

As principais competições de basquetebol têm cerca de oito meses (de meados de outubro a meados de junho). A nossa Liga não é exceção e, nesse período, uma equipa que chegue à final do play-off pode fazer 43 jogos. Há miúdos sub-14 de algumas associações do país que, jogando uma ou outra vez pela equipa de sub-13, podem fazer mais do que 40 jogos numa época... Mas isso é um assunto que deixo para outro dia.

Voltando às competições de topo, uma equipa da NBA pode jogar até 110 jogos numa época (quase três vezes mais). Na Europa, uma equipa da Liga ACB (Espanha) que jogue Euroliga pode fazer até um máximo de 81 jogos numa época (quase o dobro). As contas são fáceis de fazer: estes campeonatos fazer quatro jogos em nove dias é vulgaríssimo, com a agravante de se terem de realizar, pelo meio, viagens com muitas milhas. Também ao nível dos campeonatos europeus e mundiais, estes foram experimentando diferentes formatos competitivos, sendo que em vigência está o formato de realização de nove jogos em 15 dias, o que implica naturalmente disputar partidas em dias consecutivos com alguns dias de descanso pelo meio.

O basquetebol é um desporto veloz, intermitente, jogado num campo relativamente pequeno com muitos jogadores envolvidos na ação. Em qualquer jogo, os jogadores saltam, sprintam, correm, caminham e, às vezes, param. Estudos científicos dizem que um jogador pode percorrer cinco quilómetros durante num encontro, dependendo da sua posição e outras condicionantes, e apontam ainda para que, em média, a cada dois segundos os jogadores mudam de posição no campo. Sem querer aprofundar academicamente a temática, até porque não sou especialista, a ideia que fica é que o jogo é bastante exigente ao ponto de termos que renegar a velha máxima "temos de treinar conforme jogamos", pelo menos no que ao aspeto do treino físico diz respeito.

Concluindo, não vejo que a realização de quatro jogos em nove dias possa ser um problema para uma equipa da nossa Liga, mas também é inquestionável que as equipas que utilizam menos jogadores por jogo e com plantéis mais "curtos" terão bastante mais dificuldade em gerir a sobrecarga de jogos.

Recordo que, no fim de semana seguinte, vai ser realizada a Taça de Portugal masculina, onde os apurados jogam três jogos em quatro dias ou três jogos em três dias.

Rui Alves, treinador de basquetebol