O princípio de todas as "Loucuras de março"

O princípio de todas as "Loucuras de março"

Neemias Queta, Diogo Brito e Francisco Amiel chegaram com brilhantismo à "March Madness", mas o feito destes jovens e de todos os outros que cedo embarcam em experiências como frequentar um Centro Nacional de Treino começa antes com o apoio da família.​

Parece que a euforia à volta do "March Madness" da NCAA já passou. Numa altura em que estão apuradas as quatro universidades americanas que vão disputar a final-four no próximo fim de semana, o entusiasmo por cá esmoreceu aquando da eliminação ao primeiro jogo das duas equipas onde brilharam os três portugueses que jogaram a "Big Dance": Diogo Brito, Francisco Amiel e Neemias Queta.

Na verdade, eu sou do tempo do "June Madness", isto porque tínhamos de esperar por junho para que nos chegassem as cassetes VHS (e os DVD"s depois) da competição universitária americana.

Assisti, com curiosidade, a algumas das mesmas pessoas que desprezam os nossos americanos na Liga Portuguesa a elogiar agora a NCAA e o nível espetacular dos seus jogadores, sem lhes ocorrer que muitos dos que por cá andam jogavam ali ainda há pouco tempo. Por outro lado, sobre o ponto de vista tático, nestes fenómenos mediáticos, receio sempre o efeito de contágio, pois ao vermos a defesa zona dos Washington Huskies, uma zona 3:2 que passa a 2:3 quando a bola chega ao canto, e que eliminou os Utah State Aggies de Neemias e de Brito, dá vontade de aplicarmos amanhã nas nossas equipas, mesmo de formação, e depois não vai correr bem...

Vamos então falar um pouco dos rapazes portugueses. Mais de Francisco Amiel e de Diogo Brito, não só porque os conheço melhor, mas porque o Neemias ainda vai dar muito que falar (será?).

Primeiro, há que dizer que os três fizeram épocas brilhantes, seguramente fruto de muito trabalho e sacrifício. Em todo o lado, encontramos as mais variadas referências às suas qualidades técnicas e táticas, às capacidades físicas que usam em jogo, à perseverança e empenho que demonstram... Eu, portanto, não vou falar mais do mesmo.

Vou falar sobre algo que está a montante disso tudo e que é absolutamente decisivo: o apoio da família. O Francisco Amiel, aos 14 anos de idade, viu a sua família dar-lhe oportunidade de abandonar o conforto do lar e rumar a Norte, mais concretamente a São João da Madeira, para frequentar o Centro Nacional de Treino Paulo Pinto, estrutura da Federação Portuguesa de Basquetebol na qual jogadores de reconhecido talento e de diferentes zonas do país treinavam, estudavam, competiam e viviam entre a noite de domingo e a tarde de sexta-feira, ao longo dos períodos letivos.

Acredito que a experiência de, em tão tenra idade, viver uma vida de "jogador profissional" - às vezes mais dura que a de um profissional -, foi decisiva para desenhar o percurso de Amiel e para alimentar sonhos que, à medida que vão sendo realizados, são muito bem substituídos por outros. O seu enquadramento familiar é fantástico e certamente tudo se torna mais simples com esse suporte.

Também Diogo Brito saiu da Póvoa de Varzim para o Jamor, onde no Centro de Alto Rendimento, foi complementando a sua formação com a do clube. Também tenho a felicidade de conhecer a sua família e reconheço o incrível apoio que lhe deram ao longo da sua carreira. Estamos a falar de uma altura em que o sonho de um pai era ver o seu filho estudar, entrar na universidade e depois conseguir um emprego para a vida. Um adolescente que quisesse seguir formação em teatro, música, artes ou chef de cozinha normalmente ia ter resistências... e jogador de basquetebol nem pensar.

Têm mérito estas famílias, e felizmente há muitas outras assim, que sempre alimentaram os sonhos dos seus filhos, que os deixaram voar e ao mesmo tempo os responsabilizaram e que, acima de tudo, estiveram sempre presentes, mesmo que muitas vezes a uma difícil distância física.

Rui Alves, treinador de basquetebol