O poder da defesa

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A Oliveirense quebrou dez anos de hegemonia nesta prova, partilhada entre FC Porto e SL Benfica

A Oliveirense sagrou-se vencedora da 10ª Taça Hugo dos Santos ao vencer na final o Benfica por 70x77. Quebra assim dez anos de hegemonia nesta prova, partilhada entre FC Porto e SL Benfica, recuperando um troféu que já esteve na sua vitrina por duas vezes, a última das quais em 2005/06, na altura sob o nome Taça da Liga de Clubes. Em oito meses, a equipa de Oliveira de Azeméis sagrou-se campeã nacional, venceu a supertaça e consegue agora este terceiro título. É, portanto, inquestionável a sua supremacia no panorama atual da modalidade no nosso país. Mas então o que os torna diferentes das outras equipas? O que lhes está a permitir atingir este sucesso?

Não há, naturalmente, uma resposta fácil ou singular. Vou deixar para reflexão um dos aspetos que considero fundamental e que marcou a final desta taça em particular, tal como marca muitos jogos de basquetebol - os parciais (scoring run). O Benfica começou o jogo a perder 9x30. "Quem entra assim numa final não a merece vencer" assumem jogadores e treinador encarnado. Mas porque é que isto acontece? Não aqueceram bem? O treinador não escolheu bem o cinco inicial? A estratégia não foi adequada? Na verdade, o que normalmente acontece é que quando uma equipa não sente sucesso a atacar frequentemente arrasta a frustração até ao seu meio campo defensivo e entra numa espiral de negatividade que lhe provoca uma apatia tal, que às vezes nem reação para parar com falta o ataque adversário tem. A relação entre estas duas fases do jogo e a contaminação, ora positiva, ora negativa, que cada uma provoca na outra, não é exclusiva do basquetebol. Por exemplo em situação defensiva, um jogador tem de estar a ver permanentemente a bola e o seu atacante direto, tem de identificar a movimentação adversária, tem de por em prática as estratégias defensivas delineadas, tem de respeitar o scouting individual... são tantas coisas ao mesmo tempo que, se ainda estiver "preso" a pensar no lançamento ou passe que acabou de falhar, vai voltar a falhar novamente.

Ora, neste aspeto em particular, considero que a Oliveirense está um patamar acima de Benfica, FC Porto, Ovarense e demais equipas da LPB. Se recorrermos aos números eles são claros e evidenciam a eficácia defensiva da equipa de Norberto Alves, pois foi a que sofreu menos pontos até à data e que acumulou mais roubos de bola. Mas os números não traduzem o que considero ser muito mais importante, é que a Oliveirense é uma equipa que compartimenta muito bem as duas fases do jogo e que, quando as coisas não estão a resultar em ataque, não há uma quebra na prestação defensiva. Manter o foco na defesa mesmo estando sem marcar durante três ou quatro ataques consecutivos, continuar intenso mesmo após uma má decisão de um colega no ataque anterior, lutar por cada posse de bola como se fosse a última parecem ser parte da chave do sucesso desta equipa. Claro que conseguir isso dá mesmo muito trabalho.

"O ataque ganha jogos mas a defesa ganha campeonatos" é uma frase tão vulgarizada que até já lhe atribuem diferentes autores, mas quando Phil Jackson a proferiu sabia bem o que estava a dizer.

Rui Alves, treinador de basquetebol