Europeu de Matosinhos: como se fez mais uma bonita página no basquetebol português

Europeu de Matosinhos: como se fez mais uma bonita página no basquetebol português
Rui Alves

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Seleção Nacional masculina de sub-20 conquistou o Campeonato da Europa do escalão (Divisão B), fazendo a festa em casa, diante milhares de pessoas

A primeira pessoa que me fez acreditar no valor do nosso basquetebol chama-se Valentyn Melnychuck. Em 2006 e 2007, todas as conversas e palestras que tive a felicidade de presenciar foram deveras inspiradoras para mim... Ao ponto de me sentir envergonhado por ver um treinador ucraniano a acreditar mais em Portugal e nos jogadores portugueses do que eu próprio. Hoje, olhando para trás, não duvido que essa força e confiança que nos transmitiu a todos foi decisiva para a bonita página que então se escreveu no basquetebol português, em 2007.

Sem ter tido nenhum contacto com a recém campeoníssima Seleção Nacional de sub-20, para além de ter sido fervoroso adepto e comentador, estou convencido que a receita voltou a funcionar. Quando um grupo de jovens, cujos antepassados entraram em caravelas para descobrir o mundo, compram um sonho e perseguem-no de forma abnegada e resiliente, podem mesmo concretizá-lo.

Não sendo propriamente um "Velho do Restelo", voltei a sentir-me envergonhado por pensar que íamos perder com a Geórgia... E com a Rússia então temi mesmo um forte rombo no casco que nos levasse a naufragar. Mas, de forma altamente competente, este grupo voltou a elevar bem alto o nome de Portugal e do basquetebol português.

Todos sabemos que as equipas podem ser mais que a soma das suas individualidades. Numa seleção não é tanto assim, principalmente por dois motivos. Primeiro, não há orçamentos nem jogadores caros e baratos, quando muito o campo de recrutamento e a experiência competitiva dos jogadores pode fazer alguma diferença. Depois, é muito difícil num mês de preparação fazer o que se faz nos clubes em nove meses.

Mas, felizmente, a nossa seleção foi a exceção a esta tendência e conseguiu ser, de longe, a melhor equipa. Como se explica? Provavelmente os treinadores tinham ideias claras do que pretendiam, os dirigentes criaram as condições de trabalho e os jogadores comprometeram-se sem reservas.

Quando ouvirem discussões acerca do perfil do jogador português, das debilidades disto e daquilo, lembrem-se da forma como esta seleção defendeu cada posse de bola. Comecemos por aí. Vamos ensinar os nossos jogadores a defender em vez de defenderem-se. E, ainda sobre individualidades, se Portugal fosse o Neemias, tal como a República Checa foi o Vit Krejci, não tínhamos conseguido dobrar o cabo das tormentas.

Ainda no limpar dos confetis da festa, há já quem pergunte: e para o ano como vai ser competir com as 15 melhores seleções europeias? Bem, para o ano vai ser muito duro e difícil. Guerreiro, Teixeira, Amarante, Palhares, Banora e Correia ainda terão idade para competir neste escalão e são, sem qualquer dúvida, guardiões do espírito que levou a esta fantástica conquista. Mas, se correr mal e não conseguirmos ficar pelo menos em 13º lugar, então não seremos diferentes de Sérvias, Itálias e Rússias... Bem, mas lá estou eu novamente a pensar a medo, porque quem sabe se até não nos metemos na luta pelo pódio?

Não consigo terminar sem dedicar umas linhas ao "fenómeno Matosinhos". Nenhuma cidade europeia conseguiu organizar seis campeonatos europeus jovens, muito menos de forma quase ininterrupta (em 7 anos). A FIBA não brinca em serviço e esta benesse não se deve a lobbys, jogos de poder ou politiquices... É sim a expressão da competência da Federação Portuguesa de Basquetebol e da comissão organizadora dos europeus em particular. E quanto ao público que lotou o CDC de Matosinhos, deixo a sugestão de recordarmos o momento do jogo da final em que entoámos juntos o hino nacional com o jogo ainda a decorrer... Ainda arrepia, não é?

Rui Alves, treinador de basquetebol