As movimentações antecipadas do mercado basquetebolístico e o "efeito Sporting"

As movimentações antecipadas do mercado basquetebolístico e o "efeito Sporting"
Rui Alves

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Nos bastidores do basquetebol nacional comenta-se, cada vez mais, a época 2019/20 da Liga Portuguesa. É a equipa x que vai desistir e, portanto, o Imortal de Albufeira já não vai descer, é a equipa y da Proliga que tem dívidas e não quer subir, é a equipa z que vai trocar de treinador, etc, etc... E, quando o tema são os jogadores, então o nome Sporting invariavelmente vem à baila

O primeiro facto a registar é o timing destas conversas e das movimentações - se as houver -, pois o que era habitual no passado recente do nosso mercado basquetebolístico era este mexer-se em julho e agosto para os jogadores nacionais, com a época anterior mais do que terminada; e em setembro e outubro ao nível do recrutamento dos estrangeiros.

Neste contexto do recrutamento, desde fevereiro que os responsáveis do Sporting tornaram claro e assumiram: "Estamos a procurar fazer a equipa e vamos recrutar quem queremos, não quem podemos". Contudo, a cada nome que consta ter-se comprometido com os leões para na próxima época, é um aqui-d"el-rei de como é possível os dirigentes de Alvalade estarem a aliciar jogadores das outras equipas com o campeonato a decorrer... Haverá procedimento alternativo? E não o fazem todas as equipas em todas as modalidades?

Bem, não estamos a falar de escalões de formação. Aí sim, o aliciamento é eticamente reprovável, principalmente quando não há um projeto de desenvolvimento individual de longo prazo para oferecer e o intuito é apenas o de reforçar uma equipa para ser campeã de sub-16 ou sub-18; ou pior, o objetivo é enfraquecer uma equipa adversária e assim obter o tal título na formação. Nesse caso em concreto, o procedimento deverá incluir sempre, e desde o início, o clube de origem e os encarregados de educação.

Regressando aos (semi-)profissionais, estas contratações normalmente ocorrem em restaurantes e lobbys de hotéis, num clima de secretismo e longe de jornalistas e olhares indesejados. Mas um jogador não fica condicionado no resto da presente temporada ao ser abordado para representar um clube rival na próxima? Pode acontecer... Mas, por um lado, parte-se do princípio que o profissionalismo de qualquer jogador, no momento em que joga e que defende uma camisola, fala mais alto que o seu futuro. Por outro, os clubes que não se querem sujeitar a este tipo de riscos devem garantir a estabilidade e prolongar os vínculos contratuais com os seus atletas antes da cobiça alheia.

Como Liga vai passar de 12 para 14 equipas, é legítimo questionarmos de onde sairão mais 24 jogadores. Na verdade, a alteração do número máximo de jogadores de formação basquetebolística estrangeira possíveis de inscrever (de quatro para cinco) vai ajudar a mascarar este problema.

No entanto, é certo que a especulação sobre o valor dos portugueses vai ser enorme, nomeadamente daqueles que jogam melhor e mais tempo nos atuais clubes. Muitos deles tiveram, ou vão ter, uma proposta do Sporting que, em último caso, lhes pode fazer aumentar os valores dos seus contratos atuais. E se todos os rumores se confirmassem agora, o Sporting já tinha elementos suficientes para fazer quase três equipas de basquetebol...

Para aqueles que veem os seus jogadores sair, mais ou menos jovens, é sempre mais fácil "chorar" e apontar o dedo ao clube ou treinador adversário do que criar as condições apropriadas para a concretização dos objetivos dos atletas e assim garantir a sua retenção.

Há ainda que ter em conta que os jogadores que decidem o seu futuro exclusivamente em função do salário raramente chegarão ao topo. De igual forma, eu nunca investiria num jovem que tenha como meta de carreira jogar uma fase final distrital.

Concluindo, fica a nota muito positiva da gestão antecipada dos recursos humanos por parte de muitos clubes, sinal de preocupação na preparação da próxima época. Fica também a nota que o Sporting, sem ter feito ainda um treino, já está a mexer com o basquetebol nacional.

Rui Alves, treinador de basquetebol