A arte de fazer muito com pouco e como o Olivais Coimbra chegou ao título

A arte de fazer muito com pouco e como o Olivais Coimbra chegou ao título
Rui Alves

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O Olivais Coimbra sagrou-se campeão nacional da Liga Feminina de Basquetebol este fim de semana. Disputou a final do play-off com a equipa da Quinta dos Lombos, venceu os dois jogos e quebrou um jejum de 10 anos. Conseguiu ainda a "dobradinha", pois também já havia vencido a Taça de Portugal

Foi mais uma época em que a Liga Feminina foi bastante competitiva e equilibrada. É uma competição que está longe do poderio económico, longe do interesse generalizado, mas, quem gosta, gosta muito e acompanha fielmente. É uma espécie de sub-mundo do nosso basquetebol, onde adeptos acompanham equipas nos jogos fora e enchem pavilhões, onde dirigentes e treinadores se respeitam e admiram mutuamente e onde há um sentimento de pertença coletivo, com todos os agentes e federação a tentarem defender a prova e os seus clubes.

Eugénio Rodrigues é o treinador que conquistou o cetro nacional e cai-lhe como uma luva. Treinar uma equipa de mulheres num desporto (dito) de homens é o primeiro elogio que lhe pode ser feito, a ele e a tantos outros colegas que abdicam das condições e visibilidade do basquetebol masculino. O segundo reconhecimento, e esse mais particular, é que o Eugénio é um profissional da modalidade. Estudou, treinou, colecionou experiências em termos de clubes e seleções, procurou sempre sair da zona de conforto e chegou mesmo a emigrar para fazer o que mais gostava, mesmo podendo facilmente ficar por cá e exercer advocacia, área na qual se licenciou. Aliás, não é caso único, pois José Miguel Araújo e Ricardo Vasconcelos estão também a abrir portas com a sua competência para que mais companheiros um dia possam viver a experiência de treinar basquetebol feminino sem ser por hobby.

Sem querer cair em qualquer tipo ou forma de discriminação de género, aliás todo o texto é para ser lido como um apoio incondicional ao desporto feminino, tenho de citar uma frase que ouvi há uns anos e que acho que ajuda a lançar mais um elogio aos treinadores: "Os homens precisam de jogar basquetebol para se sentirem bem e as mulheres precisam de se sentir bem para jogarem basquetebol". Nos dois jogos da final, a equipa de Coimbra começou com vantagens muito grandes no marcador que depois acabou por perder e deixar o jogo igualar-se, muito por mérito das adversárias, diga-se.

Mas, nesses momentos, quando tudo levava a crer numa mudança no marcador, Eugénio Rodrigues fez o que um treinador tem de fazer, pediu desconto de tempo e encontrou as palavras certas e as soluções táticas adequadas para que a sua equipa voltasse a reagir e conseguisse vencer. A competência de um treinador vai além do conhecimento do jogo e da gestão das jogadoras... Mas está definitivamente refém destas duas dimensões, e o Eugénio esteve muito bem em ambas!

Para terminar, dá que pensar esta opção do Olivais ao nível da construção da equipa. Não é exemplo inovador nem único o de ter um núcleo duro de cinco jogadoras que são utilizadas até à exaustão, por oposição a equipas que jogam regularmente com oito, nove ou dez jogadoras. Os resultados demonstram eficácia e, no passado recente, esta fórmula também já deu os seus frutos. Mas fica a questão: ter um plantel pouco profundo será o modelo mais ajustado ao desenvolvimento do nosso basquetebol feminino?

Rui Alves, treinador de basquetebol