Vêm aí as eleições legislativas. E o Desporto? – Parte II 

Vêm aí as eleições legislativas. E o Desporto? – Parte II 
Pedro Sequeira

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Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, membro da comissão de treino e métodos da Federação Internacional de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva.

No artigo anterior abordamos um conjunto de temas que consideramos importante para compreendermos a visão de desenvolvimento da nossa sociedade por parte dos partidos. Nesta segunda parte amos continuidade, através de outras temáticas que consideramos de igual importância.

Começamos com o tema do financiamento. Quando abordámos os temas da economia, educação e saúde fomos falando indiretamente da parte financeira do Desporto.

De uma forma simplista diria que existem dois modelos de financiamento: um totalmente privado, onde federações e clubes se financiam através de patrocinadores e dos clientes (atletas, pais dos atletas, sócios, etc.). O estado regula e supervisiona, cria leis e mecanismos que sejam vantajosos para o tecido empresarial investir no Desporto. O outro modelo é o modelo onde o Desporto é totalmente dependente do Estado. O Estado financia o Desporto, desde os clubes às Federações. O financiamento cobre todo o tipo de despesas (recursos humanos, equipamentos, materiais, etc.). O Estado legisla, supervisiona e dirige a política desportiva.

Ambos os modelos existem e muitos países os adotam. Não são tão fechados como os apresento (no modelo totalmente privado o Estado tem algum contributo financeiro em determinadas áreas enquanto no modelo totalmente do Estado, o tecido empresarial pode patrocinar o desporto) mas as bases ideológicos são estas. Portugal, desde a revolução, acaba por ter um bocadinho de cada modelo. O Estado apoia financeiramente de forma parcial os clubes e as Federações, o tecido empresarial patrocina como pode, aqui e ali o Desporto. Poderia (deveria), a junção dos dois modelos ser o caminho perfeito. O problema é que o próprio Estado não tem conseguido demonstrar a importância que o Desporto tem para si no plano estratégico de crescimento e desenvolvimento do país.

Alguns exemplos: quais são os indicadores de uma modalidade contribuir para o desenvolvimento do país? O número de atletas federados? A formação de treinadores? O desporto infanto-juvenil? O número de clubes? Os resultados internacionais? As medalhas Olímpicas e Paralímpicas? Todos os indicadores? Alguns? Nenhuns? A lei do mecenato tem-se revelado insuficiente para atrair os investidores privados para financiarem o desporto.

São razões emocionais/sentimentais/relacionais que o Desporto gere que vai conseguindo ir buscar financiamento. O Desporto, em Portugal, está quase na sua totalidade dependente do associativismo voluntário. Treinadores, dirigentes, entre outros, trabalham de forma voluntária e generosa nas modalidades. Mas com o mesmo profissionalismo que qualquer outra profissão. Enquanto o Estado não valorizar isso, o pai ou mãe vai pagar as explicações ou o curso de línguas ao seu filho mas não vai perceber porque tem de pagar uma mensalidade ao seu filho praticar desporto.

Por outro lado o Estado não cria os mecanismos necessários para financiar consistentemente, de forma pública ou atraindo o privado, os clubes e as Federações. Este é o beco onde o Desporto se encontra. Não designo de "beco sem saída" pois há soluções. Ficam aqui algumas: a colocação do Desporto como um dos eixos estratégicos no desenvolvimento do país é o primeiro passo. Isso deixará claro para toda a sociedade da importância e credibilidade da atividade desportiva. A alteração da lei do mecenato é outra iniciativa importante, pois o financiamento provado só aumentará se o Estado privilegiar quem o faça através de medidas mais benéficas. O financiamento das federações ser baseado na avaliação de projetos de desenvolvimento plurianuais, do ponto de vista social, educacional e de rendimento desportivo. A avaliação tem de se basear na capacidade transformadora e consistente do projeto, bem como da sua longevidade. Importante o Estado descentralizar a supervisão e avaliação local para as autarquias, uma vez que são estas que conhecem a realidade do seu ecossistema social e desportivo. Por outro lado havendo um sinal claro do Estado para a importância do Desporto (tal como o faz para outras área da sociedade) entraremos num processo de alteração da cultura desportiva que levará a médio prazo a população a olhar para o desporto de forma diferente, percebendo a sua utilidade e as suas necessidades.

O último tema tem a ver com a questão da colocação do Desporto como um dos eixos estratégicos no desenvolvimento do país. Esta decisão alteraria a imagem que o Desporto tem atualmente na nossa sociedade, potenciando a ligação de todas as áreas, com a do desporto.

Como já referido no artigo anterior, não havendo hoje dúvidas sobre a importância do Desporto na saúde, na educação, na economia (por exemplo, o turismo através dos grandes eventos internacionais), entre outras, a evidência através da promoção a eixo estratégico, daria a visibilidade decisiva para a sua afirmação. Acredito que com melhor Desporto teremos um País muito melhor, em todas as áreas. Afinal, é isso que se pretende, que todos possamos viver melhor.