Treinadores: um dos segredos do sucesso do andebol em Portugal

Treinadores: um dos segredos do sucesso do andebol em Portugal

Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva

A maioria das modalidades em Portugal sofreu nos últimos anos (eu diria desde o início deste século) uma enorme crise económica e financeira, consequência das diversas crises que Portugal tem passado. O andebol, obviamente, não foi exceção. Sendo certo que alguns clubes conseguiram ultrapassar essa crise (ou quase não a sentiram), basta olhar para a década de 90 para facilmente constatarmos que o número de clubes que conseguia proporcionar condições financeiras invejáveis a treinadores e atletas em Portugal, era muito superior ao atual.

O desinvestimento (não por falta de vontade mas por falta de possibilidades) fez com que a maioria dos clubes deixasse de contratar atletas estrangeiros para as suas principais equipas masculinas e femininas (e quando contratam têm muitas dificuldades em contratar atletas de países e de clubes de topo do andebol europeu) e também deixaram de conseguir pagar subsídios interessantes aos seus atletas, o que faz com que muitos procurem em outros países a possibilidade de poderem jogar como profissionais.

Tinha chegado a hora de ter de apostar nos jogadores jovens, manter os que por cá ficavam e ir à procura pelos clubes da redondeza (isto para os mais fortes financeiramente) de mais valias na formação ou em equipas de divisões secundárias. Parecia óbvio que a consequência seria o nível das competições baixar (nomeadamente a 1.ª divisão masculina e feminina) e, por arrasto, as diversas Seleções Nacionais. De facto, nos primeiros anos, a "doença" parecia incurável. No entanto, lentamente, os jogos voltaram a aumentar de qualidade, as Seleções, principalmente as jovens, mantinham uma competitividade equivalente às principais potências mundiais, a Seleção A Masculina voltava a equilibrar os jogos com as Seleções de top, A Seleção A Feminina, embora com menos frequência, ia conseguindo alguns resultados também interessantes. Nas Competições Europeias os clubes demonstravam uma enorme competência face a clubes com orçamentos incomparáveis com a nossa realidade - exemplo: o atual Campeão Francês tem um orçamento 30 vezes (!!) superior ao atual Campeão Português. Veja-se a realidade deste ano, a participação e apuramento para a 2ª fase do Sporting na Liga dos Campeões, a prestação do FC Porto (com apuramento!) e do Benfica contra equipas da Liga mais competitiva do Mundo, a Alemã, para não esquecer o apuramento do Madeira SAD em Masculinos e do Alavarium em Femininos.

Mas como foi isto possível? Não temos dúvidas que um dos principais segredos foi a competência dos treinadores a trabalharem em Portugal nos últimos anos. Com menos (muito menos, comparado com o passado) conseguem potenciar atletas jovens e menos jovens, trabalham arduamente, motivam os atletas para a regularidade e periodicidade dos treinos, mesmo não sendo remunerados como noutros países e, acima de tudo, raramente se queixam com o que têm, dão tudo aos seus clubes e à modalidade. Esta forma de estar exigente e competente dos treinadores tem feito com que hoje muitos exijam resultados aos clubes e às Seleções sem terem a noção das condições em que muitos dos treinadores trabalham. Isto acontece porque a postura dos treinadores tem sido focar-se nas soluções, na realidade e converter isso em trabalho árduo e não em debate sobre problemas e queixas. O meu aplauso por esta atitude positiva e o meu agradecimento por tudo o que fazem pelo andebol em Portugal.