Supertaça Masculina: o legado de Quintana – parte I

Supertaça Masculina: o legado de Quintana – parte I
Pedro Sequeira

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Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, membro da comissão de treino e métodos da Federação Internacional de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva

Caldas da Rainha, 11 de setembro de 2021. O 11 de setembro já foi há 20 (o tempo passa rápido...) mas este ano coincide com o 2º dia do 18ª Congresso Técnico-Científico de Andebol e com as meias-finais da Supertaça Masculina num novo formato.

Acordei a pensar: já faltam poucos dias para receber no correio o livro do Quintana. Não é normal acordar a pensar neste tipo de coisas pelo que fiquei a pensar nisto o dia todo.

Estranho.

Nazaré, 8h45. Volto a estar com o Mats Olsson presencialmente ao fim de muitos anos (o contacto desde a saída dele de Portugal era mais por email e telefone). É sempre um dos Senhores Andebol do Mundo. Tenho enorme estima e admiração por ele. Ficámos amigos. Aprendi e continuo a aprender muito com ele (a todos os níveis).
Sei perfeitamente que o passado dele em Portugal não foi consensual. Cada um tem direito à sua opinião. Para mim ele trouxe Portugal para a Europa, por aquilo que ele representava no Mundo. Falou do Rolando e do Paulo Pereira e do orgulho que tinha em ver Portugal no patamar em que está hoje. Achava incrível. Via-se a alegria dele. As pessoas enormes são assim. Sem invejas.

Estranho, acordei a pensar no Quintana, e agora estou com um dos melhores guarda-Redes de todos os tempos.

Coincidências. Será? Adiante.

À tarde sigo para os jogos para representar o presidente da Federação de Andebol de Portugal, Miguel Laranjeiro, que não podia estar presente.

Chego uma hora antes (gosto de chegar cedo, de perceber o ambiente - coisas de árbitro, jogador e treinador do passado...). Alguns convidados e adeptos vão entrando. São quatro clubes de topo do andebol. O ambiente está calmo, alguns problemas normais de um reinício de época já com público mas ainda com medidas de organização de provas diferentes das "normais".

Começam a entrar os representantes institucionais dos clubes. Todos cordiais vão-me cumprimentando. Também se cumprimentam entre si cordialmente. O mesmo com os adeptos. Não estava à espera disto.
Bem, início de época.

Começam os jogos e, depois, se calhar já não será assim. Volto para a bancada. Vê-se alegria nas bancadas. No terreno de jogo tudo preparado para jogar. Isto está mesmo calmo.

Jogo vai decorrendo (Águas Santas-Sporting), para início de época até que está interessante. Alguns erros. Nas exclusões e nas jogadas duras o respeito impera. Estou a adorar e a estranhar ao mesmo tempo.

Quintana? Esqueçam, siga.

Intervalo. Presidente do Águas Santas vem ter comigo. Ok, deve vir queixar-se da arbitragem. Preparo-me mentalmente. Sou cordialmente cumprimentado e temos uma conversa que nada tem a ver com o jogo. Sai dali feliz.

Segunda parte equilibrada. Termina o jogo, Sporting satisfeito, Águas Santas com a ideia que quase conseguia a final. Todos se cumprimentam, adeptos comportamento correto. Penso: bem ok correu bem, mas agora vem Benfica-FC Porto. Tento perceber onde estão os seguranças e Polícia. Parece-me tudo bem organizado. Falo com os funcionários da FAP. Algum stress mas estão satisfeitos. Eu também.

Um dirigente do Benfica fala comigo antes do jogo. Nada a ver com andebol. Que dia estranho. Volto a ir para a bancada.

Dirigentes do FC Porto vieram em peso. Muito tranquilos. Fizeram boa época. Estão confiantes deve ser isso (eu a tentar perceber coisas, não sei para quê).

Gosto de ver o aquecimento. Só uma equipa aquece. Mau, estão as duas mas parece mesmo ser só uma. Devo estar a querer ver coisas que não estão a acontecer. O jogo vai começar, estão de costas para mim. Quintana joga pelo Benfica. Acho que só cumprimentei uma vez o Capdeville. Um dia tenho que lhe dizer que tenho orgulho nele por "vestir" aquele nome. E agradecer ao Benfica por deixar. E ao FC Porto por deixar.
Isto é um Benfica-FC Porto!

Que caminho o andebol está fazer. A viver algo que não sei exprimir.
Quintana?
Começa a primeira parte. Benfica está forte e segue na frente. Devem começar agora as dificuldades na bancada. Olho para os dirigentes do FC Porto. Calmos. Adeptos do FC Porto: puxam pela equipa.

Termina a primeira parte. Levanto-me e vou falar com os dirigentes do FC Porto. Conversa interessantíssima, não se fala do jogo. Começo a achar... Bem, ok, não sei. Vou ao WC. Cruzo-me com um dirigente do Benfica. Está contente. Parece-me normal.

Segunda parte.
FCPorto consegue perceber como dar a volta ao jogo e dá mesmo. Jogo intenso. Muita luta. Muita dureza.
No final do jogo olho para os dirigentes do FC Porto e a tranquilidade mantém-se. Do lado do Benfica percebe-se que havia ambição e esperança de uma ida à final, mas jogadores e equipas técnicas cumprimentam-se de forma quase familiar.
Não consigo deixar de reparar no Quintana nas costas do Capdville.

Venho para fora do pavilhão e fico longo tempo à conversa com o Selecionador Nacional Feminino. Vou olhando para os autocarros das duas equipas. O ambiente é equivalente. Cá fora volto a ver só uma equipa. Os olhos vêm duas, o cérebro junta-as. Retorno ao pavilhão para o balanço com os funcionários da Federação e de seguida regresso à casa. Foi um dia longo, estranho mas estou feliz. Não foi de hoje, já sentia há algum tempo que o andebol estava diferente. Que estava como sempre sonhei e desejei. Mas não era sonho. Ou não tinha ainda acordado?

Enfim, domingo continuava o Congresso e depois seria a final.

Sporting-FC Porto. Ui, mais um duelo fortíssimo.

Nazaré, 12 de setembro.
9h15 e já estou na Nazaré. Noite e manhã normal. Congresso mantém preleções muito boas. Simon Sorensen dá-nos mais uma vez a perspetiva do andebol dinamarquês da formação à alta competição. Gostei mas senti que estamos mais perto.
O Paulo Pereira trouxe um discurso muito claro: fazer simples, sempre e podemos ter sucesso (ou continuar a ter).

Excelente almoço com bom ambiente. Estava a ser um dia tão normal que não me lembrei do dia anterior.

Chego ao pavilhão outra vez. Hoje já tinha cá o presidente pelo que dediquei-me a observar mais e conversar menos. Não tive grande hipóteses. Ao fim de cinco conversas regressam os pensamentos estranhos: "epá, as pessoas estão mesmo simpáticas".

Regresso ao normal ate que acontece o momento que mais me marcou e levou a escrever este artigo (aliá há dois motivos, o outro fica para o fim): num momento do jogo (já não consigo recordar-me a parte) quando o Areia está a recuperar para a posição defensiva, o Nátan, jogador do Sporting diz algo. De imediato o Areia levanta o calcanhar e o Nátan tira um pouco de resina da sapatilha do Areia, agradece, e vai para a posição no ataque (central). Ambos trocam olhares de cumplicidade.

Alguns adeptos do FC Porto brincam com o momento mas não afeta os dois andebolistas.

Eu, depois daquele momento, não liguei mais ao jogo. Afinal o dia anterior tinha sido real. Este é o andebol que eu sempre sonhei e agora é realidade. Fico feliz de poder viver esta evolução. Quando o jogo termina olho para as bancadas de FC Porto e Sporting. Na do FC Porto festeja-se, mas os seus dirigentes - outra vez em peso - festejam de forma humilde.
Na bancada do Sporting nota-se que queriam mais mas há respeito.
Jogadores cumprimentam-se em família e depois é a festa do FC Porto.

Claro que o Quintana estava lá. Ele joga sempre para ganhar.

Assim que recebi o livro "Quintana, um guerreiro extraordinário", li em poucas horas. Passado umas horas escrevi este artigo. Quando forem ler o livro vão perceber porque hoje escrevi o artigo desta forma.

É a minha forma de homenagear uma pessoa (até mais do que o guarda-redes estratosférico) que contribuiu, pela sua forma de ser, para ajudar o andebol a ser o que é hoje.

Se puderem comprem o livro. Reverte para a Raquel e para a Alícia o valor total dos direitos de autor.

A segunda parte segue dentro de dias.