Os jovens e o cancelamento das competições desportivas: atenuar consequências

Os jovens e o cancelamento das competições desportivas: atenuar consequências
Pedro Sequeira

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Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva

A maior parte dos países do Mundo começou por suspender diversas atividades da sociedade por causa da covid-19. Foi a forma inicial de combater a propagação do vírus. Uma das suspensões que está a criar um grande impacto nas diversas sociedades que o já fizeram foi a suspensão das atividades letivas. Milhares de crianças e jovens viram a vida e as rotinas educativas alteradas. O ensino à distância e o e-learning têm o seu tempo de adaptação para professores, alunos e pais.

Nos últimos dias começaram os grandes eventos desportivos a serem adiados (exemplo: Jogos Olímpicos e Paralímpicos passaram para o Verão de 2021). Agora chegou a hora das competições dos jovens nas mais diversas modalidades serem canceladas. Não havendo a possibilidade dos jovens poderem prosseguir os treinos nas diversas instalações desportivas nos próximos tempos esta medida começava a ser incontornável.

É previsível que durante os próximos dias todas as modalidades desportivas terminem as suas competições. Cancelar estas competições significa que os jovens, na melhor das hipóteses, lá para setembro poderão retomar a atividade desportiva. Nos países que venham a ser menos atingidos pela covid-19 ou naqueles que já atingiram o pico e estão agora na fase descendente da propagação, talvez os jovens consigam iniciar os treinos um pouco mais cedo.

Já as competições e os torneios finais de época não terão condições de serem retomadas. Entrámos agora no início de abril. Tendo como cenário otimista (não arrisco a palavra realista) que em setembro será possível recomeçar a época desportiva, teremos cinco meses onde os jovens não poderão treinar nem competir. Dirão alguns (e com razão) que muitos jovens continuam a treinar em casa pois os seus treinadores foram mantendo acesa a réstia de esperança de que tudo poderia melhorar rapidamente.

Mas agora vem o momento mais difícil: dar a notícia aos jovens que não vão ter mais competições. Aos treinadores (e, logo de seguida, aos pais) caberá esta difícil tarefa. Explicar as razões porque isto aconteceu e quais as perspetivas de futuro. Deixo aqui algumas reflexões/sugestões para os treinadores e pais lidarem com os atletas/filhos sobre este assunto.

Em primeiro lugar é muito importante que o jovem perceba que as medidas tomadas são para o proteger. Consoante a faixa etária, é importante adequar a linguagem para que eles percebam o que está a acontecer. Em segundo lugar, os adultos não podem, nunca, esquecer (esta parte é muito positiva) que os jovens têm futuro! Seja o tempo que for necessário, isto vai passar. Em terceiro lugar é importante que eles saibam (esta parte para os mais velhos é mais fácil) que é impossível treinar natação, canoagem, ténis ou andebol em casa. O treino é mais geral mas é importante que se mantenha durante os meses que os treinos das modalidades não regressam.

É importante o treinador manter contacto regular com os atletas para saber deles (não só da parte desportiva!). Com as tecnologias existentes isso hoje é fácil. Manter, também, contacto com os pais (ou com quem os jovens vivem), para perceber como eles percecionam o comportamento do seu filho. Poderão haver situações familiares que condicionem o dia a dia dos jovens. O treinador tem de ter acesso a todas as variáveis possíveis para conseguir enquadrar o seu apoio.

Os pais, obviamente, terão o papel mais importante, que é o de acompanharem o dia a dia da criança, monitorizarem todas as atividades dos seus filhos (escolares, desportivas, de lazer) e lidarem com todos os momentos em que eles se sintam deprimidos, tristes, insatisfeitos com a situação atual. Deverão ser eles os maiores apoiantes no treino em casa e, se o fizerem com os seus filhos, pode ser um estímulo para que eles não desistam.

A título pessoal posso partilhar que tenho feito isso como os meus filhos e, para já, sinto que ajuda. Vamos ver se o ambiente positivo se mantém assim nos próximos meses.

Acredito que treinadores e pais poderão atenuar as consequências da falta de treinos e competições dos jovens. Elas existirão, isso é inevitável, mas desta forma poderão ser mais controladas. O resto, o pós-covid-19, estará muito nas mãos dos clubes e Federações Desportivas. Abordaremos isso noutra oportunidade.

Votos de muita saúde para todos!