O "não tema" do momento: parece que a História não nos ensinou nada…

O "não tema" do momento: parece que a História não nos ensinou nada…

Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, membro da comissão de treino e métodos da Federação Internacional de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva

Hoje escrevo na primeira pessoa, pois este tema (para mim "não tema") é muito pessoal. O meu avô, alemão de nascença e judeu de crença, e a minha avó, francesa/alemã de nascença (a zona onde nasceu mudou várias vezes de país por causa das guerras pelo que ela nunca sabia bem de onde era...) e católica de crença, fugiram da Alemanha na década de trinta do século passado quando o nazismo fez os primeiros avisos aos judeus...

No caminho para Portugal (mais concretamente na Corunha) nascia a minha mãe. Chegados a Portugal, criaram novas raízes familiares. A minha mãe viria a casar com o meu pai (Beirão de nascença) e mais tarde surgiria o meu irmão e depois eu. Os meus pais lutaram pelos direitos de nascença dos filhos (antes do 25 de abril acreditem que não era fácil) mas após a revolução conseguiriam que tivéssemos direito à nacionalidade da minha mãe (alemã) e do pai (português).

E assim, orgulhosamente, passei a ter a nacionalidade dos meus pais, ou seja, dupla nacionalidade. Estudei 14 anos na Escola Alemã de Lisboa e, com a presença permanente da minha mãe, adquiri muito da cultura, dos valores e da educação alemã. Ao viver em Portugal e em Lisboa, e através do meu pai, adquiri o mesmo relativamente ao ser português.

No momento da minha primeira inscrição como jogador de andebol (12 anos) lembro-me do clube perguntar-me: "Quer ser inscrito como estrangeiro ou como português?" ao que eu respondi "Mas qual é a diferença?". A resposta foi clara "Depende qual a seleção que quer representar um dia". A decisão estava tomada, se algum dia fosse chamado a representar uma Seleção, seria a portuguesa!

Reneguei, com isto, o meu passado? Traí a Alemanha? Claro que não! Tinha e tenho um enorme orgulho na nacionalidade que recebi da minha mãe (continuo a ter passaporte alemão, para além do português), quando estou na Alemanha ou com alemães sinto-me em casa e sempre que Portugal é eliminado de uma competição desportiva (ou não participa) é pela Alemanha que torço.

Mas num Portugal-Alemanha serei sempre pelo país que acolheu os meus avós, onde nasci e que me tratou e continua a tratar bem. Provavelmente, muitos dos leitores desconheciam a minha história pois sempre me viram (e continuarão a ver) como alguém que luta e faz tudo pelo seu país.

Mas a minha história, aliás a minha dupla nacionalidade, ajuda-me a compreender o que muito dos medalhados e não medalhados portugueses estão a sentir. Não há mais portugueses ou menos portugueses. São todos portugueses. Sentem como portugueses. Alguns terão sotaque? Sim. Eu também falo com alguns erros gramaticais (quem fala comigo pode estar agora mais atento a isso e vai se aperceber-se). Sou menos português por causa disso? Tenho lido e ouvido enormes barbaridades (podia escolher uma palavra menos simpática) sobre este assunto. É que nem se trata de concordar ou discordar de opiniões. É voltar ao passado e ficar com a ideia (e o receio) que não aprendemos nada com a História.

No início do século passado alguém (não o defino como pessoa ou ser humano...) defendeu uma "raça pura". Por causa disso, milhões de inocentes morreram e deu-se início à II guerra mundial, onde mais milhões de pessoas morreram. Cabo aos mais velhos lembrar os mais novos que no após II guerra tentámos voltar a ser uma sociedade mais evoluída. Não vamos regredir!

Anteontem vi o Nikola Karabatić (filho de pai croata e mãe sérvia) a festejar a medalha de ouro como qualquer francês o fez. Sentir o país que se representa e a que se pertence é isto. Não são os papeis, ou os anos ou o local de nascimento que definem o que somos e o que sentimos.

Por isso obrigado ao Pedro, ao Jorge, à Patrícia, ao Alexis, ao Victor, ao Alfredo, ao Nélson, enfim a todos os Portugueses que lutam e trabalham diariamente para levar o nome de Portugal a todos os cantos deste nosso planeta. E que todos sintam orgulho neles por fazerem isso pelos seu país!