O Mundial do nosso contentamento

Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva

Fez ontem (dia 25 de janeiro) exatamente um ano que conquistámos o 6.º lugar no Europeu de Andebol. Essa classificação histórica permitiu-nos apurar pela primeira vez para o Torneio Pré-Olímpico e para o play-off do Mundial 2021. Estávamos em plena época desportiva, com FC Porto e Benfica com excelentes desempenhos nas provas europeias e o Campeonato Nacional muito equilibrado.

Sentia-se que através dos clubes e da Seleção Nacional, os nossos atletas iam continuar a evoluir, mantendo-nos num patamar muito elevado. De repente, e de forma inesperada, apenas um mês e meio após o final do Europeu, Portugal e o Mundo eram apanhados pela maior pandemia do Século XXI e uma das maiores de sempre.

Em março ainda não tínhamos a noção do impacto que esta pandemia ia provocar no Desporto. No início ainda acreditávamos que, passado umas semanas, seria possível retomar as competições internas e europeias de clubes, bem como a participação no torneio Pré-Olímpico que nos poderia trazer o sonho de estar, em agosto, em Tóquio. Infelizmente com o decorrer do tempo fomos percebendo que a pandemia era muito maior e bastante mais grave do que alguma vez tínhamos pensado.

Todas as provas de andebol foram canceladas ou adiadas. Apenas a possibilidade de estar diretamente no Mundial sem ter que participar num play-off surgia como boa notícia entre os dramas que vivíamos diariamente. Com o adiamento dos Jogos Olímpicos e a impossibilidade de as equipas seniores poderem treinar sem restrições até Agosto, foi criando um clima de enorme instabilidade no andebol Português (e Mundial).

Como poderiam os clubes preparar a nova época? Qual o impacto da pandemia nos jogadores? Que tipo de competição teríamos na nova época? Em que condições poderia a Seleção Nacional preparar-se para as diversas competições onde agora se encontrava envolvida?

Só no final do Verão começava-se a perceber que a Seleção teria o apuramento para o Europeu 2022 antes do Mundial, mas sempre com muitas indecisões, pois dependia de como a pandemia poderia afetar os jogadores e, por consequência, clubes e Seleções Nacionais durante os meses antes do Mundial. Apesar destas indefinições (nem sequer o Mundial estava garantido) o ambiente de expetativa e confiança à volta da Seleção Nacional continuava muito grande.

Equipa técnica e jogadores iam alimentando esta expetativa (sabendo nós que, por dentro de cada um deles, havia o receio da pandemia impedir a competição ou mesmo a participação individual ou coletiva).

Dias antes do Mundial se iniciar duas seleções eram impedidas de participar por terem as comitivas infetadas. A nossa Seleção Nacional ia conseguindo sobreviver aos diversos obstáculos (viagem à Islândia, jogos sem lesões ou infetados, viagem ao Egipto, entre muitos outros). Quando a competição se iniciou, com uma vitória sobre a Islândia, com uma excelente exibição da Seleção Nacional, até parecia que os últimos dez meses tinham sido normais.

De vitória em vitória a Seleção conseguiu um apuramento imaculado para o Main Round. Com seis pontos, tinha agora pela frente Noruega, Suiça e França. Eram precisas, em princípio, duas vitórias para assegurar a passagem aos quartos de final. O primeiro jogo era com a Noruega. Para mim, que acompanho a Seleção Nacional desde 1986 (sentado nas bancadas do Pavilhão do Inatel em Lisboa, com o meu falecido pai, a ver o Mundial C que se realizou cá), foi provavelmente o melhor jogo que vi da nossa Seleção Nacional contra uma equipa de topo mundial (a Noruega é a Vice-campeã do Mundo em título).

A derrota por um golo deixou-nos com a convicção que Portugal poderia continuar a fazer uma grande prova. Dois dias depois a vitória sobre a Suíça veio comprovar que Portugal tinha legítimas esperanças e possibilidades de poder lutar com a França (e indiretamente com a Noruega) por um lugar nos quartos de final.

O jogo com a França foi muito difícil, e apesar de todo o empenho da Seleção Nacional, não foi possível superar o adversário, terminando assim a participação no Campeonato do Mundo. As horas a seguir à derrota não foram fáceis para ninguém digerir (nem quero imaginar como se sentiam jogadores e equipa técnica).

O sonho tinha sido interrompido. Havia muito orgulho com a prestação da Seleção Nacional, a comunidade andebolística demonstrava isso, os votos de parabéns das mais diversas pessoas e entidades de outras áreas da sociedade validavam esta participação, mas parecia que faltava algo para nos sentirmos verdadeiramente felizes.

Por coincidência (ou não), exatamente um ano após o 6.º lugar no Europeu, vinha a notícia que Portugal tinha ficado classificado em 10.º lugar no Campeonato do Mundo do Egipto! É a melhor classificação de sempre de Portugal num Campeonato do Mundo!! A Seleção Nacional bem merece por tudo o que fez dentro e fora de campo!

E agora os novos desafios (apuramento para o Europeu 2022 e Jogos Olímpicos) que venham!