O desporto e o Covid-19: planear e preparar o "após"

O desporto e o Covid-19: planear e preparar o "após"

Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva


O Desporto Federado tomou decisões. Decisões surpreendentemente rápidas (em comparação com outras áreas da sociedade e dos seus respetivos líderes) que tiveram como única finalidade proteger atletas, árbitros, dirigentes e adeptos. Numa altura em que se fala muito sobre a "indústria" do desporto e de tudo o que a envolve, não deixa de ser interessante que num momento muito complicado e delicado da nossa sociedade não ter existido, visivelmente pelo menos, qualquer tentativa de travagem das decisões. Posso, orgulhosamente partilhar, até porque vivenciei isso, que as federações com número significativo de agentes desportivos em Portugal partilharem e articularam as suas preocupações, envolvendo também as instituições europeias e internacionais. Esperemos que estas decisões ajudem a que a pandemia cause menos estragos (dentro dos muitos que vai/está a causar) no nosso país.

Com um período alargado de suspensão quase total da atividade desportiva nasce uma situação pouco usual no desporto: estar parado. Os agentes desportivos terão agora que começar a preparar o "após" pandemia, numa situação invulgar "sem rede de segurança", dado que o momento delicado e incerto dificulta a projeção de cenários.

Começando pelos atletas. Sejam da formação ou do rendimento, um tempo de paragem prolongado (e não previsto) terá uma influência negativa em todo o desenvolvimento do atleta. Deverão eles, por isso, estar em contacto permanente com os seus treinadores, para perceberem o que podem e devem fazer em período em que o isolamento e afastamento físico é aconselhado. Os treinadores têm um papel fundamental na construção do "após". Têm de conseguir perceber como está o enquadramento dos seus atletas ao nível familiar, profissional e psicológico. A sua intervenção tem de ter em conta as questões sociais individuais do atleta mas, ao mesmo tempo, utilizar este período como se de um período transitório se tratasse, e orientá-los numa atividade mais generalista ou especializada, consoante o atleta, a sua modalidade, e as condições/locais que tem ao seu dispor sem por em causa a sua saúde e a saúde pública. Tarefa muito complicada, certamente, mas muito importante.

Finalmente o dirigente desportivo tem uma tarefa tão ou mais complicada do que os treinadores e os atletas. Por um lado tem de acompanhar o efeito que toda esta situação está a provocar aos seus atletas e treinadores, nas suas diversas vertentes. Por outro. tem de lidar com os pais, os fornecedores, as decisões dos políticos locais face às instalações, tentando preparar o após o melhor possível. Com a dificuldade acrescida de ter de manter todos os parceiros e patrocinadores ligados ao projeto como desde o início da época.

Nas situações dos clubes profissionais (ou com atletas e funcionários profissionais) esta ligação torna-se ainda mais decisiva pois qualquer alteração pode ser dramática para o que se planeou e para o que se pretende no futuro. O dirigente tem de conseguir construir/manter uma ambiente de confiança à volta do clube/associação/federação. Tudo isto sem esquecer as responsabilidades pessoais, familiares e profissionais. Tarefa megalómana mas que não pode ser descurada e tem de ser iniciada desde já.

Quem está ligado ao Desporto sabe que os desafios fazem parte do dia a dia. Os desafios grandes também. Este é hércule! Mas o desporto vai superar! Vamos a ele!!