O caminho do andebol: o que o Europeu nos ensinou

O caminho do andebol: o que o Europeu nos ensinou

Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva

Qualquer atividade está sempre sujeita a balanços, reflexões e avaliações constantes. O andebol, enquanto atividade desportiva, não foge a essa regra, e isso tem sido evidente através do último Europeu de de seniores masculinos. Se para Portugal, este Europeu permitiu escrever uma página de ouro na história da modalidade - melhor classificação de sempre e resultados verdadeiramente extraordinários - para a Federação Europeia de Andebol (EHF) este foi o melhor Europeu de sempre e onde se bateram todos os recordes: quase meio milhão de adeptos viu os jogos ao vivo, as redes sociais da EHF cresceram 27%, vídeos online visualizados por 12 milhões de pessoas, quase 90 canais de todo o mundo compraram direitos televisivos enquanto um milhão de adeptos acompanhou a prova através do canal online ehfTV.


Mas voltando a Portugal, a minha reflexão utiliza o Europeu como um marco numa caminhada que continua e não apenas num momento (único, que nos deixou a todos orgulhosos e felizes, mas que já é passado). Desde 1929 (data da introdução do andebol em Portugal, a partir de 1949 o andebol de sete) a modalidade passou por vários momentos, altos e baixos. Se nas últimas décadas (70, 80 e 90) o andebol estava num crescimento sustentado - em qualidade e quantidade -, quer ao nível da formação, quer ao nível do andebol masculino e feminino, o início do século XXI trouxe enorme instabilidade, o que, associado à crise económica do país (e que culminou com a intervenção externa do FMI, CE e BCE) fazia temer os piores cenários.

No entanto, é nestes últimos 10/12 anos (talvez um pouco mais, difícil dizer com exatidão, a referência são os anos de nascimento dos atletas) que a maioria dos clubes, mesmo vivendo com grandes dificuldades (o difícil acesso a apoios financeiros face a novas regras e legislação obrigou a grande criatividade e novas abordagens), reorienta toda a sua atividade, começando a notar-se, em toda a largura da modalidade (escalões de formação, andebol feminino, andebol masculino, andebol de praia, andebol em cadeira de rodas), uma persistência, um empenho, uma tenacidade, pouco comuns na sociedade portuguesa.

Os andebolistas, desde as idades mais jovens até aos seniores, começam a mostrar muitas semelhanças na qualidade dos colegas dos países mais desenvolvidos. Acompanhando as diversas provas nos diversos escalões, a qualidade de jogo é cada vez melhor. Mesmo nos locais e clubes onde a crise deixou maiores marcas (e que se mantêm por lá), a vontade de sobrevivência é enorme. Se em 2018 e 2019 já era visível, através dos resultados dos clubes nas provas europeias, masculinas e femininas, e nas competições internacionais, das Seleções Nacionais Jovens (masculinas e femininas), Andebol de Praia e Andebol em Cadeira de Rodas, o 6.º lugar no Europeu no dia 25 de janeiro de 2020 foi o grito de Ipiranga de todo um trabalho dos atletas, treinadores, dirigentes e clubes de Portugal inteiro.

Insisto, as dificuldades financeiras e as transformações da sociedade nas suas diversas vertentes não desapareceram, o que aconteceu foi que os clubes, através dos atletas, treinadores e dirigentes, têm tido a capacidade de manter o foco no desenvolvimento do Andebol e esta sua aptidão tem permitido uma evolução a todos os níveis nunca antes vista. Se o Estado Português, a Federação (onde tenho as minhas responsabilidades) e as Associações Regionais souberem apoiar e auxiliar estes pilares de desenvolvimento (clubes), não tenho dúvidas que o caminho irá acumular marcos positivos. E se as outras modalidades com dificuldades idênticas ou maiores que o andebol conseguirem o mesmo trajeto (ou superior), o desporto português contagiará a nossa sociedade. E com esses valores positivos (empenho, dedicação, compromisso, superação, respeito) que o desporto transmite ira torná-la certamente melhor. Eu acredito!