Muito preocupado com os pequeninos: aletas da formação, clubes e treinadores

Muito preocupado com os pequeninos: aletas da formação, clubes e treinadores
Pedro Sequeira

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Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva

Tenho acompanhado com grande preocupação o desenrolar da pandemia por todo o mundo, com maior ênfase no nosso país. Os números das últimas duas semanas são preocupantes. São números esperados pois estamos a começar a entrar no outono/inverno (época propícia para as gripes) e, por outro lado, houve necessidade de tomar algumas medidas de desconfinamento pois temos de começar a habituar-nos a viver com este vírus. Todos temos que ter sentido de responsabilidade face ao momento que vivemos.

Face às diversas funções que exerço, sou obrigado a acompanhar, do ponto de vista técnico e científico, como este vírus se propaga e atua. Não sou médico nem investigador na área das ciências médicas e da saúde mas os documentos da DGS (Direção Geral da Saúde) e da OMS (organização mundial da saúde) e muitos dos artigos escritos por médicos de saúde pública e de outras especialidades da medicina, são de leitura relativamente fácil para mim.

Devemos privilegiar atividades (desportivas, deslocações para o emprego, etc.) ao ar livre e, quando em espaços fechados, que sejam individuais (carros, bicicletas) ou grandes espaços ou edifícios (pavilhões, trabalho em open space). A ventilação dos espaços fechados (lojas, escritórios, ginásios pequenos) é fundamental. O aglomerado de pessoas em número reduzido deve ser privilegiado.

O Desporto Federado, desde os seus primórdios, sempre foi bastante organizado. Ao nível dos clubes, treinadores e dirigentes em regime de voluntariado sempre fizeram (e continuam a fazer!) tudo para darem o máximo de conforto aos atletas.

Na formação estamos a falar de perto de 11 mil clubes e quase 400 mil praticantes jovens (dados da PORDATA, 2018). As modalidades praticadas ao ar livre (e que são consideradas de médio ou alto risco, portanto com grandes restrições na formação) como por exemplo o futebol ou o rugby, conseguem, nos escalões de formação, terem 15/16 crianças (podem chegar às 20 ou 25) num espaço quase sempre à volta dos 8000m2.

Apesar da prática ser sem máscara, é ao ar livre e num espaço enorme. Se formos para um pavilhão desportivo, onde as modalidades de andebol, basquetebol, futsal, hóquei em patins, voleibol, judo, karaté, patinagem e tantas outras utilizam, tem uma área quase sempre de 800m2. Também aqui os clubes têm a possibilidade de ter apenas 15/20 atletas a praticarem as modalidades.

Mais uma vez, é certo que é sem máscara (e fazendo atividade desportiva o número de gotículas é maior) mas dado o espaço, os cuidados com a desinfeção constante, os treinadores de máscara e as bancadas sem pais, amigos ou familiares, há condições de segurança. E, normalmente, não estamos a falar de apenas um adulto a orientar a atividade (treinador). Há sempre mais adultos (dirigentes) a apoiar as crianças e jovens.

Apesar de não gostar muito de comparações, a verdade é que a prática desportiva de crianças e jovens que vos apresento aqui reúne muito maiores condições de segurança (e em conformidade com as preocupações da DGS) do que a utilização dos transportes públicos (pessoas x espaço), salas de aulas (normalmente com 20m2 e 30 pessoas) ou cafés. Claro que sei que o ensino e o trabalho (nas mais diversas vertentes profissionais), são duas áreas prioritárias de uma sociedade. Afinal sou professor e sei bem a importância da educação bem como a sorte de ter emprego para sustentar a minha família.

Mas o desporto federado nas crianças e jovens é fundamental para eles ganharem hábitos e estilos de vida saudáveis, para a saúde mental, para o desenvolvimento motor, para aprender as dinâmicas de grupo, regras e por ai fora. As crianças e jovens precisam de poder praticar a sua modalidade e não "uma coisa". O miúdo que vai para o futebol quer jogar futebol. O que vai para o judo quer agarrar no kimono do colega e praticar com ele. E por aí fora. Não poderem praticar a sua modalidade traz-lhes frustração, desmotivação e, no limite (como infelizmente já acontece), leva.-os ao abandono.

É determinante que em situação de treino as crianças e jovens possam praticar a sua modalidade sem restrições. Como fundamentei anteriormente, há todas as condições e razões para isso, sem colocar em causa a saúde. Numa segunda fase poderemos avançar para as competições locais/regionais. A DGS (felizmente) tem condições e dados atualizados para perceber a evolução nas diversas regiões. Neste caso específico não é justo que as decisões sejam a nível nacional pois a pandemia é muito heterógena. Finalmente (durante os primeiros meses de 2021) há condições para avaliar se é possível avançar para as competições/fases finais nacionais.

Os clubes não aguentam muito mais. E se os clubes colapsam (já há alguns a caminhar para isso, diariamente recebo diretamente relatos disso) o desporto infanto-juvenil vai atravessar um período complicadíssimo (já está a acontecer) com efeitos devastadores nas próximas gerações de crianças e jovens, aos mais diversos níveis (e que já apresentei há pouco).

Os treinadores têm feito autênticos milagres para manter esta situação no limiar da sobrevivência do desporto de formação. Mas o desgaste e a falta de condições e soluções começam a ser preocupantes. Os treinadores são o último bastião da nossa esperança.

Percebo que o desporto profissional e o desporto de rendimento necessitem de receitas para sobreviver. E que os adeptos sejam peça fundamental para isso. Mas sem escalões de formação, o desporto profissional e de rendimento desaparecem. As federações e outras entidades com responsabilidade no desporto federado não podem esquecer isso.

Começa a haver uma desfocagem naquilo que é realmente importante no desporto federado. Os praticantes são o mais importante. Os 400 mil jovens são prioridade. Têm de ser. E, aliás, sem clubes e praticantes não há federações desportivas. Não convém esquecer isso.

Eu não me esqueço.