Liga dos campeões: o que nos trouxe e perspetivas do futuro

Liga dos campeões: o que nos trouxe e perspetivas do futuro

Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, membro da comissão de treino e métodos da Federação Internacional de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva

Começar este artigo é simples. Fez ontem oito dias que temos um português, Luís Frade, na lista dos jogadores que venceram uma Liga dos Campeões! Os jogadores portugueses continuam a atingir resultados e performances incríveis e este foi mais um.

Foi uma época atípica (por causa do Corona) pelo que o percurso das equipas não foi uniforme entre todos. Alguns realizaram todas as partidas, outros não. A irregularidade dos jogos a nível nacional também terá tido influência nas prestações internacionais (desde não jogar uma semana ou duas a fazer três jogos numa semana). A análise pode, por isso, estar um pouco condicionada.

Em primeiro lugar destacar a presença de duas equipas francesas na final four. Os aumentos muito significativos dos orçamentos em França tornaram as equipas francesas no novo" el dorado" de muitos jogadores. A liga francesa tornou-se muito mais forte e, consequentemente, as suas atuações nas provas internacionais de clubes melhoraram significativamente. A presença do Barcelona (9 em 12 edições da final four da nova Liga dos Campeões - clube que mais vezes chegou a esta fase) trazia o aliciante de uma equipa que vinha 60 jogos consecutivos a vencer. Por fim, o Aalborg, vindo de um país que é atualmente uma das maiores potenciais mundiais ao nível das seleções, mas cuja competição doméstica sempre exportou os melhores jogadores e, por isso, limitou-se a ter uma competição modesta. No entanto, nos últimos anos os clubes têm vindo a aumentar a sua competitividade. Mesmo assim era o underdog desta competição a quatro.

Nas meias-finais o Aalborg provou, mais uma vez, que no andebol, uma equipa é muito mais do que o somatório de um conjunto de jogadores extraordinários. O PSG, com a sua constelação de estrelas, ficou mais uma vez fora da final. Na outra meia-final, equilíbrio durante muito tempo, mas a qualidade e empenho da equipa do Barcelona colocaram a equipa na final. A final entre o Barcelona e o Aalborg deixava no ar a expectativa se os dinamarqueses seriam capazes de mais um feito depois da vitória no dia anterior. Mas o Barcelona provou ser fortíssimo e tinha duas motivações extra: fazer uma época sem derrotas e demonstrar ao seu presidente que o desinvestimento na próxima época era de uma tremenda injustiça.

A saída de um treinador com tremendo sucesso (Xavi Pascual) e de alguns dos melhores jogadores deixa um ponto de interrogação enorme no ar: como será um Barcelona mais frágil a nível nacional e internacional? Chegará o empenho e entrega típica desta equipa suficiente para superar os seus adversários?

O Nantes, apesar do quarto lugar (não deixa de ser extraordinário) demonstrou que com uma equipa jovem mas talentosa, onde joga o nosso Cavalcanti, orientada por um treinador carismático - Alberto Entrerrios - tem um futuro risonho pela frente. O Aalborg provou que hoje há espaço para equipas de campeonatos que não são muito competitivos, desde que exista organização, dedicação e muito treino (em quantidade e qualidade). Relembro que o Aalborg eliminou o FC Porto apenas pelo maior número de golos fora... Finalmente, o PSG comprovou que um grupo de jogadores de topo mundial (Mikkel Hansen, Karabatic, entre muitos outros) não é garantia de sucesso para as competições europeias. Terá de haver muita reflexão para os lados de Paris.

O andebol provou que está cada vez mais evoluído, mais competitivo, onde cada detalhe, cada tomada de decisão (de treinadores e jogadores), podem fazer a diferença. Os próximos anos comprovarão isso mesmo.

Saí de Colónia com o pressentimento que não faltará muito tempo para ver uma equipa portuguesa neste patamar. Aguardemos.