Eu acredito no andebol

Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, membro da comissão de treino e métodos da Federação Internacional de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva.

Escrevo estas linhas a poucas horas da Seleção Nacional de Andebol em Cadeira de Rodas iniciar a sua participação no Campeonato do Mundo/Europa (prova oficial inédita que atribui os dois títulos) e onde tem legítimas aspirações às medalhas.

Num ano onde a Seleção Nacional Sub20 Masculina conseguiu um brilhante 2.o lugar no Europeu. Num ano onde quatro equipas no setor masculino conseguiram o apuramento para a fase de grupos das suas competições (só não puderam ser cinco porque duas equipas portuguesas jogaram entre si na eliminatória decisiva). Num ano onde todas as equipas femininas estão apuradas para a 3.a eliminatória (não me recordo de alguma vez isto ter acontecido). Num ano onde a presença - e já agora, organização, em Porto Santo - na fase final da Liga dos Campeões de Andebol de Praia tivemos uma participação meritória. Num ano onde a Seleção Nacional Feminina encontra-se apenas a um playoff para se apurar para a fase final do Campeonato do Mundo. Num ano onde há enorme expectativa de mais uma boa participação da Seleção Nacional Masculina no Campeonato do Mundo. Num ano onde os primeiros dados internos mostram que, no final da época, o número de atletas masculinos e femininos vai crescer de forma muito interessante.

Nos últimos anos o andebol tem atingido patamares muito interessantes, alguns mesmo difíceis de imaginar. Já no passado tinha havido períodos de grande sucesso (face aos diferentes contextos do passado e presente não me arrisco a qualificar quais os melhores períodos pois as variáveis eram diferentes) mas este, definitivamente, tem sido um excelente período.

Infelizmente, mesmo assim, o andebol acaba sempre por viver momentos conturbados. Já estou ligado ao andebol há quase 40 anos e foi sempre assim. Tive um professor na faculdade que um dia nos disse: o maior inimigo do andebol são as próprias pessoas do andebol. Na altura fiquei um pouco espantado, admito. Agora sempre que o encontro não resisto em dizer-lhe que, infelizmente, tinha razão.

Nunca tivemos que nos preocupar com as crises do país ou do mundo, com as ameaças de outras modalidades, as políticas (ou falta delas) desportivas, enfim, com todo o tipo de ameaças. Temos a capacidade de criar as nossas próprias dificuldades. Seja em casa ou no pavilhão, algumas pessoas têm a capacidade doentia de desejar a derrota do próprio clube ou seleção, para tirarem proveito disso. Alimentam-se de serem os profetas da desgraça. Quando tudo corre bem é uma chatice, uma monotonia.

Devo dizer que, este tipo de pessoas, não é algo que me preocupe. Apenas me entristece. A comunidade do andebol, a grande maioria, é simplesmente fantástica e acaba sempre por arranjar forma de se unir e expurgar quem não quer o bem da modalidade.
Eu recordaria que a base de qualquer modalidade, a começar pelo andebol, são os clubes, os seus atletas, treinadores e dirigentes. Sem eles não há razão da nossa existência.

Associações Regionais, Federações, líderes, organismos do estado ligados ao desporto só existem porque existem os clubes. É um facto e uma verdade tão básica e simples. Mesmo que não nos identifiquemos com clube A, B ou C, ou com o atleta X ou o treinador Y, a verdade é que são eles que alimentam a base do andebol. São eles que têm de ser acarinhados e apoiados.

De forma mais popular diria "coloquem os egos no bolso", arregacem as mangas e ajudem. Se não querem, ou têm interesses pessoais - e não coletivos! - em prol da modalidade, seja a nível regional ou nacional, que se dediquem a família ou à sua profissão e deixem o andebol e o desporto em paz.