Ensinamentos para a vida: o legado de Quintana – parte II

Ensinamentos para a vida: o legado de Quintana – parte II
Pedro Sequeira

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Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, membro da comissão de treino e métodos da Federação Internacional de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva

Quando pensamos num desportista, a nossa mente leva-nos para aquilo que o levou para o desporto, a forma como lida com o sucesso e com o insucesso, momentos únicos na carreira e por aí fora. Se somos ou fomos praticantes, ou treinadores, é normal querermos perceber como um praticante ou treinador chegaram ao topo e como lidam ou lidaram com isso. Na maior parte das vezes achamos que os ensinamentos desportivos vão ser determinantes para retirarmos daí algumas aprendizagens. É normal, natural e, na verdade, é útil. No entanto, à medida que vamos amadurecendo com a vida vamos percebendo que os exemplos dos outros podem-nos ensinar a superar um conjunto de dificuldades ou, simplesmente, ajudarem a sabermos viver no desporto. Mas que os exemplos não se restringem à parte desportiva.

Toda a parte humana de um desportista é que é a base do ensinamento que retirarmos dele. A vida do Quintana (muito curta, infelizmente) dá-nos muitos ensinamentos. O livro sobre o Quintana está escrito de uma forma que nos permite perceber estes ensinamentos. Não é "apenas" sobre um guarda-redes de andebol? Não, é "apenas" sobre um ser humano que foi guarda-redes de andebol. O Quintana viveu uma vida que nos pode ensinar muito para a nossa. Cada um, após a leitura do livro, fará a mesma reflexão que eu fiz. Provavelmente até conseguirá retirar mais do que eu aqui vou partilhar. De forma egoísta algumas vou guardar para mim, pois tocam-me face à pessoa que penso ser. Cada um deve fazer isso para si, pois o livro invade (de forma positiva e honesta, diga-se) a nossa intimidade através da intimidade da vida do Quintana. Alguns dos ensinamentos que a vida do Quintana nos deixa são estes que partilho agora:

Amizade - desde o nascimento até à sua morte o Quintana não larga os amigos. Os amigos também não largam o Quintana. Porquê? Porque o Quintana é como é e demonstra o que é. Tem defeitos? Claro. Mas não os esconde. É tão transparente que os amigos, mesmo quando ele os irrita, não o conseguem largar. Só a história da saída de Cuba e o acolhimento pelo FC Porto demonstra como vários amigos o ajudaram e as razões porque o fizeram. Porque ele dá e recebe sendo ele próprio. Quem não gostaria de ter um amigo assim? E ser amigo assim? Sermos nós próprios como o Quintana sempre foi torna as amizades verdadeiras e para o resto da vida.

Amor - ler os testemunhos dos pais, do irmão, da Raquel, dos amigos, dos colegas, ou mesmo dos adversários, da forma como transmitem o sentimento que têm pelo Quintana (e que pelas palavras deles percebemos que era recíproco) são sentimentos de amor. Pelos elogios que fazem do Quintana? Não. Pelas histórias simples, puras do dia a dia. Duas deliciaram-me: quando a Raquel fala das zangas, desavenças com o Quintana e da forma como ele depois procurava fazer as pazes, amuado ou não. Fez-me sorrir a intensidade destas partilhas, consigo imaginar as caras dos dois. A histórias do Quintana na rouparia, a cerveja às escondidas com um dos seus vários confidentes. Depois lemos o dia da sua morte e o que ele nesse dia resolveu vestir de forma pouco usual - simples mas marcante para quem relata isso (vão ter de ler...) e percebemos que só quando há verdadeiro amor nos lembramos dos pormenores. Amor da mulher e amor dos amigos. Haverá amor mais importante?

Persistência/empenho/dedicação - o Quintana não é o andebolista exemplar que só pensa em ver vídeos dos atacantes (percebemos pelos relatos de alguns treinadores e colegas que não era o que mais apreciava). Mas quando decide deixar Cuba, seja de que forma for, quando decide vir para o desconhecido (Portugal), quando decide ficar num só clube (por mais convites que tivesse), quando decide representar a Seleção Nacional, percebemos que, de facto, estas características estão sempre presentes ao longo da sua vida. Dedicação às pessoas, ao desporto, ao país (aos dois), à família (ler como a Raquel e amigos descrevem a paixão do Quintana pela Alícia) entre muitas outras coisas, são ensinamentos muito mais latos do que é ser persistente/empenhado/dedicado no dia a dia. Que transferidos para o desporto ajudam a estar mais perto do sucesso (nas suas diferentes vertentes).

Respeito - pelo livro percebemos que o Quintana respeitava todos e que todos o respeitavam. Se precisávamos de provas disso, basta ver as manifestações que todos os clubes das diversas modalidades fizeram após a sua morte. Só quando o respeito é verdadeiro e sincero é que os adversários (nem sei se esta palavra é adequada neste contexto) não têm problema de o demonstrar. O respeito é um ensinamento poderoso que o Quintana nos deixa.

Guarda-redes - o único ensinamento mais técnico que partilho. O Quintana não seguia um modelo específico de guarda-redes. A técnica que utilizava a sua técnica dele. Acho que teve a sorte de ter treinadores muito competentes que perceberam que deviam respeitar as suas características e potencia-las. Os resultados estão à vista. Seja em que posição de campo for, os treinadores devem, acima de tudo, tentar perceber as características individuais de cada um e potenciá-las. Se fizerem mais isso, teremos mais Quintanas no andebol português.

Aprendemos (eu aprendi) muito com o Quintana. O livro permitiu-me isso. Que inveja de quem conviveu com ele diariamente, nas diversas formas.

Se puderem comprem o livro. A totalidade dos direitos dos autores Reverte para a Raquel e para a Alícia. E, para cada um de nós, revertem muitos ensinamentos...