As competições internacionais e a verdade desportiva: o dilema dos próximos tempos

As competições internacionais e a verdade desportiva: o dilema dos próximos tempos
Pedro Sequeira

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Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva

Ponto prévio: em finais de outubro passado estive em Tóquio e pude testemunhar as expetativas e o orgulho que o povo japonês tinha com a realização, em 2020, dos Jogos Olímpicos. Mais: pude constatar que se há pais organizado e com capacidade de superar qualquer dificuldade é o Japão. Acrescento: acredito até que o Japão seja capaz de ter medidas que não permitam que o Covid-19 afete os Jogos Olímpicos (24 de julho a 9 de agosto).

Até ao dia de hoje (20 de março) mais de 170 países estão afetados pelo Covid-19. Apesar da pandemia ser mundial, a propagação do vírus é muito heterogénea. Sem ser especialista da área, consigo perceber que há países (poucos) ainda não infetados, alguns pouco infetados, alguns muitos infetados e muito poucos a ultrapassar a pandemia. Dentro de cada país, consoante o tamanho (comparar globalmente a Rússia com a Bélgica é difícil, por exemplo), existem também grandes diferenças. Ou seja, é quase impossível os países superarem a pandemia na mesma altura, assim como é difícil que dentro do próprio país tudo seja ultrapassado na mesma altura.

Tendo em conta a realidade, parece ser incontestável que, quando tudo regressar ao normal (será que voltará?), que seja na mesma altura e nas mesmas condições. O que abrirá primeiro? O pavilhão, a piscina ou o campo de futebol? Será que a competição retomará no ponto em que ficou, foi alterada ou mesmo cancelada? É igual entre cada modalidade ou diferente? No atual estado de emergência (que em cada país tem regras diferentes) um atleta de ténis e um de natação conseguem treinar de forma especializada? Viver num T2, num T3 ou numa quinta influencia o treino e o estado psicológico do atleta? E aquele que tem um familiar em casa doente, consegue pensar na sua modalidade?

Se a Liga dos Campeões de futebol ou de andebol se realizarem nas novas datas, atletas e clubes terão tido as mesmas condições de treino e competição até lá? Poderá alguém dizer que, na verdade, isso nunca acontece pois todos os clubes têm diferenças desde sempre: orçamentos, pavilhões, estádios, competições nacionais. Sim, é verdade, mas isso não se compara a um período prolongado de paragem por causa de uma epidemia! A diferença é substancialmente superior e é quase impossível prever as consequências a diversos níveis.

Imaginem estarmos em plenos Jogos Olímpicos a assistir à final de 100m de atletismo. Oito atletas de oito países diferentes em que a doença, a paragem, e o recomeço dos treinos foi diferenciado. Faz sentido olhar para esta final como se nada tivesse passado para trás? Não creio. Não consigo imaginar (nunca passei por isso) o que significará para um atleta/equipa ter estado quase quatro anos a preparar para ir aos Jogos Olímpicos e de repente não ir. Deve devastar qualquer atleta.

Mas imaginem estes cenários e vou utilizar o andebol como exemplo. Cenário A: a Seleção Portuguesa consegue retomar os treinos em maio e chega ao torneio pré-olímpico e as três restantes seleções não conseguiram fazer um único treino ou jogo. Como se sentirão os jogadores portugueses em jogar perante as condições dos colegas adversários? Cenário B: a Seleção Portuguesa não consegue fazer um único treino ou jogo e chega ao torneio pré-olímpico onde as restantes três seleções conseguiram treinar desde maio. Como será o sentimento de revolta de não conseguirem competir em igualdade de circunstâncias? Pode agora o leitor criar os infinitos cenários neste torneio e para todas as modalidades dos Jogos Olímpicos ou Liga dos Campeões ou qualquer outra competição internacional. Faz sentido? A verdade desportiva estará garantida e protegida? Para mim não.

Termino como comecei. Tenho absoluta confiança no Japão. Mas acho que desta vez o país do sol nascente não conseguirá iluminar tudo e todos. E sou o primeiro a lamentar isso.