Andebol nos Jogos Olímpicos: uma missão "quase impossível"

Andebol nos Jogos Olímpicos: uma missão "quase impossível"

Pedro Sequeira, vice-presidente da Federação de Andebol de Portugal, membro da comissão de métodos da Federação Europeia de Andebol, membro da comissão de treino e métodos da Federação Internacional de Andebol, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal e professor coordenador de Ciências do Desporto em Rio Maior, opina em O JOGO sobre a atualidade desportiva

Em Portugal não se fala muito das qualificações das modalidades coletivas para os Jogos Olímpicos. Temos um historial reduzido nestas modalidades. O Polo Aquático esteve uma vez, há 69 anos (1952), o futebol esteve quatro vezes (1928, 1996, 2004, 2016) mas tem restrições desde 1992 onde apenas podem participar jogadores dos sub-23 mais 3 jogadores acima dessa idade - por esta razão é um torneio menor da FIFA, quando comparado com as outras modalidades coletivas e, finalmente, o Hóquei Patins, enquanto modalidade de demonstração, uma vez, em 1992. E, finalmente, o Andebol apurou-se pela primeira vez na sua história para os Jogos Olímpicos de Tóquio!

Voltando à questão inicial: então porque não se fala muito das modalidades coletivas em Portugal? A resposta é simples: porque é missão (quase) impossível pelo que os Portugueses passaram a olhar para estas modalidades como só ao alcance dos predestinados, os Países mais desenvolvidos, os Países com maior população, etc. Terão razão? Toda! Ora vejamos: no torneio olímpico de andebol (masculino e feminino) participam apenas 12 equipas!! 12 equipas de 209 países. Qualquer coisa como apenas 5% das equipas conseguem chegar aos Jogos Olímpicos! Agora as quotas: o torneio final é constituído pelo país organizador, pelo campeão mundial, pelos 4 campeões continentais (a América, na totalidade, apura apenas 1 equipa e a Oceânia nenhuma...). Os restantes 6 apurados saem de 3 torneios de apuramentos de 4 equipas.

Como se chega aos Jogos Olímpicos via Europa? Sendo Campeão do Mundo ou da Europa são as duas formas diretas de se apurar. Para os torneios de apuramento tem que se ficar nos primeiro 5/6 do Campeonato da Europa (depende se o Campeão do Mundo está nestes 6) e depois está-se apurado...para o torneio de apuramento...No torneio de apuramento, das 4 equipas de cada grupo apuram 2 equipas. Chegado aos Jogos Olímpicos de Tóquio temos 7 Seleções Europeias, uma é Portugal! (são 7 pois o Campeão do Mundo é Europeu e a Europa conseguiu apurar o máximo de Seleções possíveis via Torneio de Apuramento Olímpico (podia ter apurado um mínimo de 2 e assim ter só 4). E nós, como chegámos lá? 6ºs no Europeu (onde o Campeão Mundial estava entre os 6 finais logo apuravam os restantes 5) fomos ao Torneio de Apuramento Olímpico onde o golo mágico do Rui Silva nos últimos segundos permitiu vencermos por 1 a França. Se tivéssemos empatado (era um resultado fabuloso contra a ultra ganhadora França) tínhamos ficado pelo caminho e a Croácia (ex-campeã da Europa, do Mundo e Olímpica) estava hoje em Tóquio...

Se formos analisar as formas de apuramento das restantes modalidades coletivas (basquetebol, basquetebol 3x3, hóquei em campo, pólo aquático, rugby de seven, voleibol, voleibol de praia) o apuramento é igualmente complexo e muito restritivo pois participam as melhores Seleções do Planeta. Ficarei feliz quando outra modalidade coletiva consiga se apurar pois saberei valorizar. E se for nos femininos ainda mais, pois nunca conseguimos. Agora em Tóquio não podemos olhar para as Seleções participantes só pelo nome. Afinal, as melhores 12 equipas entre 209 estão lá. Estou pessimista? Nada! Podemos ganhar a medalha de ouro ou ficar em 12º lugar. Mas nunca podemos esquecer o percurso até lá chegar e respeitar isso.