Saio aqui. Adeus e obrigado!

Paulo Baldaia

Tópicos

DRAGÃO DO SUL - A última crónica de Paulo Baldaia em O JOGO, para ler aqui.

Se há coisa que sei a meu respeito é que sou religiosamente portista, nem pior nem melhor que outro adepto qualquer, mas muito portista.

E, quanto mais tenho de falar de futebol, menos percebo como pode alguém ser de outro clube qualquer. Como adepto defendi como soube o meu clube, a minha cidade, a minha região. Nunca calei, mas agora cansei e saio nesta paragem. Continuarei a ser portista, portuense, nortenho, a partir de Lisboa, mas já não como Dragão do Sul, o alter ego com que procurei afirmar-me comentador-adepto.

Espero bem que o Futebol Clube do Porto ainda seja campeão, mas tenho sérias dúvidas que isso possa ser possível, porque é evidente a intencionalidade das nomeações de árbitros e VAR para dar o segundo lugar ao Benfica, beneficiando com isso um Sporting campeão. Também sei que este tipo de interesses se combate com constante denúncia e trabalho no terreno, por parte dos dirigentes, exigindo verdade desportiva, e não com arruaça que só prejudica o clube e a imagem de um povo que, a partir do Norte, sempre foi um exemplo para todo o país, em defesa da liberdade e da justiça. É por justiça que temos de clamar, pela justiça que ponha cobro à evidente falcatrua desportiva num negócio de muitos milhões, mas também pela justiça que penalize fortemente os comportamentos que não são admissíveis em quem faz vida na órbita de um desporto. Ser corajoso e inconformado não é, não pode ser, usar violência, seja em que circunstância for. Seja com o Benfica, com o Sporting, com o FCP ou com outro clube qualquer.

O pouco que posso orgulhar-me de ter dado ao futebol terá sido a frontalidade com que denunciei o que me parece ser um regime ao serviço de um clube. Mas até nisso não tive grande sucesso, como se vê pela impunidade que habita toda a justiça e não apenas a justiça desportiva. Temos um poder político refém de uma suposta grandeza em número de adeptos, calado perante as maiores trafulhices, alimentando a ideia de que o futebol é um mundo à parte, onde impera a lei do mais forte e onde ninguém tem de pagar pelos crimes que comete. Cansei de toda esta impunidade e já não tenho paciência para os males de uns que justificam sempre os males dos outros.

Nos últimos anos beneficiei financeiramente com o futebol (infelizmente com parcos proveitos), porque as crónicas ou a participação em programas televisivos são trabalho e o trabalho, por lei, tem de ser pago, senão chama-se escravatura. Abdico desse rendimento, mas devo salientar que, no regresso à condição de adepto anónimo, espero continuar a receber do futebol o que ele sempre me deu de melhor, a alegria de ver o meu FCP conquistar títulos nacionais e internacionais. O futebol também me permitiu acrescentar mundo ao mundo que fui conhecendo profissionalmente como jornalista ou como simples cidadão que gosta de viajar. Acompanhei a equipa azul e branca em muitas e bonitas jornadas da Champions, a maior parte das vezes a convite de empresas e, meia dúzia de vezes, a convite da direção do FCP. Mas também vi muitos jogos em Alvalade e, pasme-se, fui convidado uma vez pela direção do Benfica para ir a Turim ver uma final perdida da Liga Europa. Foi, é claro, antes de me tornar comentador-adepto e dessa forma ter passado a ser persona non grata naquele lado da segunda circular.

E, sendo portista desde que me conheço, com responsabilidade de chefia no jornalismo desde há décadas, por que razão aceitei fazer esta incursão no mundo do adepto que tem direito a falar sem papas na língua? Coisa que, diga-se, no exercício da profissão de jornalista não podia fazer, porque o jornalismo tem regras bem mais exigentes que as que se aplicam ao mundo dos comentadores de futebol, sejam adeptos ou pseudo-especialistas. Os verdadeiros especialistas, esses estão noutro patamar. Lembro-me bem do orgulho com que recebi o convite do José Manuel Ribeiro para escrever uma crónica semanal em O JOGO. Presumo que o diretor do jornal soubesse que eu era um nabo a falar de futebol, embora eu goste de acreditar que, depois disso, com o tempo, fui aprendendo alguma coisa. Estava diretor da TSF quando surgiu a proposta e há muito tempo que comentava política na SIC, pelo que ter alguma visibilidade pública e ser adepto ferrenho do Futebol Clube do Porto, a viver em Lisboa, eram os únicos créditos que eu tinha para ocupar um espaço que, seguramente, seria ocupado com muito mais brilhantismo por tantos e tantos adeptos que sabem mais de futebol do que eu.

Foi a minha presença n'O JOGO que levou a Sport TV a convidar-me, primeiro para duelos com adeptos de outros clubes e depois para um programa semanal. Daí, saltei para o "Dia Seguinte" na SIC, onde acumulei o comentário político que já fazia, e ainda faço, com a presença num programa de adeptos que rapidamente se percebeu ser tóxico. A SIC deu o pontapé de saída para acabar com esses programas, a TVI seguiu-lhe o exemplo, e a toxidade ficou a ser um exclusivo de alguns comentadores ditos independentes, que têm em Rui Pedro Braz, na TVI, e Rui Santos, na SIC, os seus mais ilustres representantes. Anda assim, o universo do futebol. Saio aqui. Adeus e obrigado!

P.S. Foi uma honra escrever n'O JOGO, jornal dirigido pelo melhor jornalista desportivo que me foi dado conhecer. Aos jornalistas da casa que durante anos tiveram paciência para receber os meus textos, paginá-los ou corrigi-los (fui salvo meia dúzia de vezes por camaradas de profissão que não deixaram este adepto fazer figuras tristes, escrevendo asneiras). Muito obrigado. Bem hajam, todos!