Estará em curso um "golpe de estado"?

Estará em curso um "golpe de estado"?
Paulo Baldaia

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PREMIUM: DRAGÃO DO SUL - Um artigo de opinião de Paulo Baldaia

Para evitar que a propagação do Covid 19 tenha um crescimento exponencial, situação para que nenhum serviço de saúde do mundo está preparado, o governo anunciou um programa com dezenas de medidas de que se destaca a suspensão das aulas. Este anúncio foi feito já depois da Liga ter decidido suspender os jogos de futebol profissional. Ninguém é capaz de dizer quando se vai atingir o pico da crise. Sabemos quando começou, mas não sabemos quando vai acabar. Ou seja, voltaremos a ter competições esta época? Se a resposta a esta pergunta for negativa, seguem-se três perguntas para as quais vai ser preciso encontrar respostas, porque a época pode estar perdida, mas o mundo não vai acabar.

1 Haverá campeão?

Sem meias tintas, com o Futebol Clube do Porto em primeiro lugar, o mais certo é que a época de 2019/2020 acabe sem campeão. Porque esta situação não está prevista nos regulamentos da Liga, a corte de Lisboa nunca aceitará que quem vai em primeiro seja declarado campeão, mas nenhum de nós duvida que, da teoria à prática, os "sábios" alterariam as suas certezas se em primeiro lugar andasse o clube do regime. Veremos as decisões que se vão tomar por essa Europa fora, para que os lusitanos da capital não se atrevam com truques de última hora. Por exemplo, não venham com imaginários play-off ou uma finalíssima, porque se fosse possível fazer esses jogos, também seria possível terminar o campeonato. A não ser que estejam apenas preocupados em arranjar maneira do Benfica conseguir ficar em primeiro. Mas tenham cuidado com o que desejam, porque esta época já perderam de forma clara com o FCP por duas vezes e se quiserem continuar a perder, é possível que esse seja o caminho... Na verdade, num eventual play-off teriam de jogar todos os clubes que ainda têm hipóteses matemáticas de chegar ao título, o que implicava que os sete primeiros disputassem essa prova.

De qualquer forma, sem mas nem meio mas, só um clube pode ser declarado campeão e esse é o que está em primeiro quando o campeonato termina. Se decidirem terminar como está agora, o campeão terá de ser o FCP.

2 Quem vai à Liga dos Campeões?

Na eventual impossibilidade de encontrar um campeão esta época, vai ser na mesma preciso definir quem entra diretamente na fase de grupos da Liga dos Campeões, quem vai às pré-eliminatórias e quem vai à Liga Europa. Aqui é que a porca torce o rabo, porque se torna ainda mais difícil para os arautos do regime defender que a primeira vaga deve ser atribuída aos de São Domingos de Benfica. Não que a congregação não esteja já à procura de argumentos, como defender que a entrada direta na fase de grupos é do campeão, acrescentando que sem campeão em 19/20, o último campeão é que conta. Tendo em conta as tristes figuras que por lá andaram a fazer nos últimos anos, não é caminho que se aconselhe, mas estamos a falar de um clube que sempre teve mais olhos que barriga. Acontece que da passagem da Taça dos Campeões Europeus para a Liga dos Campeões, com todas as suas evoluções, a competição deixou de ser entre os campeões de todos os países para passar a ser uma competição entre os melhores clubes da Europa, entrando sempre, por exemplo, o quarto de Espanha e nunca o campeão do Luxemburgo. O que não deve lá faltar é um dos clubes com mais presenças naquela competição.

A entrada nas provas europeias deve ocorrer de acordo com a classificação que se verificava no momento em que a competição nacional tenha sido definitivamente encerrada.

3 Fair-play financeiro também fica suspenso?

A UEFA tem tido uma atenção especial ao fair-play para evitar desvios na concorrência entre clubes. Faz bem. A questão agora é de saber se, perante circunstâncias extraordinárias, como aquelas que agora vivemos com a paragem da atividade, este instrumento deve ser suspenso ou flexibilizado.

Naquilo que me importa mais diretamente, que é o fair-play aplicado ao FCP, defendo que o clube deve manter com todo o rigor o plano previsto no acordo fechado com a UEFA, preparando argumentos para uma circunstância completamente atípica num negócio em que a quase totalidade das despesas se mantêm, enquanto as receitas sofreram um rude golpe. Depois de numa primeira fase, o FCP ter cumprido o acordo, chega a este momento em grande dificuldade, sobretudo porque falhou o acesso à Liga dos Campeões, perdendo cerca de 60 milhões de euros. Está agora obrigado a realizar mais-valias significativas com a venda de direitos desportivos de jogadores, mas até esta parte fica comprometida com a natural desvalorização do negócio. Governos pela Europa fora já intervieram noutras áreas da economia, flexibilizando regras e adiando obrigações, como seja o pagamento de impostos. A UEFA deve ser, mesmo que apenas temporariamente, mais flexível nos direitos e nas obrigações.

P.S. Com os mesmos argumentos com que defendi que a entrada nas competições europeias deve acontecer de acordo com a classificação na altura em que a competição nacional for encerrada, defendo que descidas e subidas de divisão sejam feitas exatamente da mesma forma.