Sucesso do andebol do FC Porto à boleia de Magnus Andersson

Sucesso do andebol do FC Porto à boleia de Magnus Andersson

A crónica de Paulo Faria sobre a histórica vitória do andebol do FC Porto, explicando que, depois de na arena do Vardar ter estado no céu e ter regressado à terra, o treinador portista venceu o Kielce em todos os sentidos

Ontem assisti ao vivo a uma partida que me de deu particular gozo. Estavam a orientar as suas equipas, FC Porto e Kielce, nada mais nada menos que dois dos melhores centrais de toda a história do andebol, ambos com currículos de eleição enquanto jogadores.

Joguei contra os dois. No Europeu de 1994 contra a Suécia de Magnus Andersson, a minha grande referência como central, juntamente com Viktor Tchikoulaev, e frente a Talant Dujshebaev disputei a final da primeira edição da Liga do Campeões Europeus pelo ABC, quando ele jogava pelos espanhóis do Teka de Santander.

Há muito para escrever sobre esta estrondosa vitoria do FC Porto, e, apesar de serem dois grandes treinadores, grandes pensadores e grandes estrategas, Magnus Andersson venceu em a partida em todos os sentidos, e digo-o desta forma porque o resultado final não chega para descrever o que o treinador portista fez, isto depois de na arena do Vardar ter estado no céu e de seguida ter feito uma segundo parte algo desastrosa. O que o fez voltar à terra.

Quero analisar o jogo pela perspetiva da estratégia, aquilo que mais admiro num treinador; o saber ter uma ideia de jogo, mas ao mesmo tempo saber mudá-la durante o mesmo, interpretar e agir num curto espaço de tempo.

Vamos, portanto, a factos:

1º - Escolha dos jogadores principais para a partida (ideia)
Apesar de ter começado o jogo com o seu sete habitual, tendo na primeiro linha André Gomes, Rui Silva e Djibril M'Bengue, soube sentir/perceber e antecipar, pois aquilo que normalmente passa para o 7x6 entre os 10 e 15 minutos não aconteceu; chamou, para protagonistas, o pivô Iturriza, mas principalmente chamou os menos utilizados Yoan Balazquez e Angel Hernandez, dois laterais cubanos. Foi no mínimo uma decisão estranha, que me deixou a mim - e de certeza a Talant Dujshebaev - surpreso e sem perceber o que se seguiria.

2º - Porque o fez? (estratégia)
Eventualmente Magnus Andersson discordará de mim, mas o FC Porto não mudou só as escolhas dos jogadores, mudou também em pormenor as suas acções ofensivas, ao aperceber-se das fragilidades defensivas individuais de alguns jogadores do rival: Branko Vujovic, Julen Aguinagalde e Romaric Guillo. Foi assim que criou a sua estratégia.

O treinador portista montou o seu jogo para privilegiar as acções de 1x1 dos seus laterais, e aí nem Fábio Magalhães nem André Gomes, e muito menos Djibril M'Bengue têm a força, a potência, a capacidade e a imprevisibilidade dos dois cubanos, que foram exímios a vencer os duelos sobre os segundos ou terceiros defensores, em função da colocação do pivô, abrindo também espaços para Miguel Martins brilhar. E brilhou, no 2x2 com Iturriza, ou no 1x1.

A certa altura, parecia que a defesa do Kielce era frágil, mas, ao isolar jogadores, o FC Porto conseguiu anular a forte entreajuda que caracteriza a equipa polaca na defesa, obrigando os defensores adversários com menos mobilidade a um esforço maior no 1x1, provocando um desgaste enorme e aumentando a frustração.

3º - Últimos 10 minutos em 7x6 (estratégia e xeque-mate)
Este jogo não foi para Daymaro Salina, nem para Fábio Magalhães, nem para os pontas, mas conhecendo Magnus Andersson o treinador adversário, e sabendo que o Kielce estava com o orgulho ferido e ia, naturalmente, querer reagir e tomar decisões que lhe poderiam sair do controlo, Magnus voltou a vencer ao não permitir que o Kielce alterasse o sistema defensivo ou fizesse marcações individuais.

Quem já jogou, sabe o que custa estar a perder, querer aumentar a agressividade defensiva e não o poder, porque defensivamente está em inferioridade. Magnus Andersson só teria de não perder o controlo e aí entrou um jogador que o faz na perfeição esse papel e que ganhou valor com este treinador, Fábio Magalhães.

Com o 7x6 a ser utilizado só nos minutos finais, o FC Porto ganhou vantagens na partida em termos emocionais e conseguiu, tranquilamente, fechar o jogo com muita classe.

O FC Porto mostrou nesta partida que não está na Liga dos Campeões para passear. Venceu com mérito e sabedoria e, como disse o presidente portista no programa oficial da partida, "o que se passou na época 2018/19 esteve muito longe de acontecer por acaso".