O ABC voltará, tem mesmo de voltar

O ABC voltará, tem mesmo de voltar

Um texto de opinião de Paulo Faria, antigo internacional português de andebol e treinador.

Temos adeptos em Portugal que têm empatias por diferentes clubes, são do Sporting, do Benfica, do FC Porto, do Águas Santas, do Madeira SAD, do Belenenses e de outros clubes, mas há um que conseguiu, ano após ano, colher a simpatia de todos, não só daqueles que gostam de andebol, como daqueles que são mais apreciadores de outras modalidades, mas que associam o amarelo, o êxito, a formação e os valores desportivos e humanos ao ABC.

Quem anda pelo país, sente que o ABC é conhecido e reconhecido por todos. É um clube que, por forte influencia do professor António Cunha, e depois com Aleksander Donner, conseguiu uma grande caminhada de sucesso, ratificada em 13 campeonatos nacionais, 12 Taças de Portugal, sete Supertaças e uma Taça Challenge, para além de uma final da Liga dos Campeões, em 1993/94 e ainda 23 títulos na formação.

É por culpa do não apuramento para o grupo A, pela primeira vez na história do clube e do seu fantástico currículo desportivo, que sou obrigado a escrever esta crónica. Infelizmente, este ABC não se compara ao ABC desses tempos, mas tenho a certeza que todos, e em especial aqueles que trabalham e que são adeptos do ABC, desejam ser possível inverter este caminho, este rumo descendente. É tempo dos atuais dirigentes e dos adeptos pensarem, efetivamente, que ABC querem, qual o caminho a seguir.

O modelo de organização atual passa por uma SAD, em que o clube é minoritário, não tendo qualquer controlo nas decisões, como têm normalmente todos os clubes com SAD. É para mim imperativo que a maioria da SAD pertença ao clube e, por consequência, seja devolvido aos sócios.

No plano desportivo, terá que haver uma renovação completa de toda a estrutura. Há demasiadas pessoas acomodadas, há atletas que deram muito ao ABC, mas cujo prazo de validade, num clube de alta competição, estará ultrapassado, e há contratações que foram erros efetivos. Terá o ABC que conseguir algo parecido com o que fez Aleksander Donner que, a alguns jogadores da formação, entre os 17 e os 18 anos, como Álvaro Martins, Rui Almeida, Carlos Galambas, Paulo Morgado e eu, juntou-lhes a experiencia de Victor Tchikoulaev e Vladimir Bolotskih e mais alguns jogadores portugueses mais "batidos", criando uma mescla muito competente e totalmente virada para o sucesso.

Terá o ABC que encontrar um treinador, poderá mesmo ser Jorge Rito, mas que queira e esteja motivado para formar, valorizar, arriscar em jovens jogadores, como está a fazer Bruno Lage no futebol no Benfica.
Já escrevi, num outro artigo, sobre "A Academia SHEA (Skanderborg Handbold Elite Akademi)" e ela é um fantástico exemplo de como um clube deveria estar organizado. Nesse sentido, fica claro que o caminho para o ABC atingir o sucesso depende muito dos seus dirigentes.