Premium Reabilitar o Sporting é uma espécie de desígnio nacional

Reabilitar o Sporting é uma espécie de desígnio nacional

PASSE DE LETRA - São gabadas as qualidades estoicas dos jogadores, outrora vilipendiados pelo dealer Bruno, hoje heróis abnegados

1 Tenho acompanhado com um misto de interesse e estupefação esta espécie de movimento informal que defende que a reabilitação do Sporting (que está em curso com surpreendente eficiência) é uma espécie de desígnio nacional. Ouvi um comentador televisivo dizer, aqui há umas semanas (quando o Sporting anunciou a contratação do atual treinador), que, não sendo sportinguista, estava a torcer para que tudo desse certo para o clube de Alvalade, pois era do interesse do futebol português que o Sporting fosse um clube forte. A ideia pareceu pegar: jornais, televisões, comentadores e curiosos começaram a render-se a esta ideia de que é importante reabilitar os leões. A metáfora é simples: o clube lisboeta é retratado como uma espécie de toxicodependente que, por efeito de um malvado dealer, de nome Bruno, (eleito pelos sócios, mas hoje tido como o causador de todos os males), bateu no fundo, atingiu o grau zero da dignidade clubística. Por isso, cabe-nos a todos, solidários que somos nas causas nobres, ajudar este "ex-tóxico" no seu caminho de redenção, na sua recuperação. E as coisas tem corrido bem e o Sporting é hoje ajudado por todos. Os fazedores de opinião criam a nova metáfora leonina e são gabadas as qualidades estoicas dos jogadores, outrora vilipendiados pelo dealer Bruno, hoje heróis abnegados, passando pela serenidade quase budista do seu treinador, até aos 100 dias de governação churchilliana do seu presidente. Enfim quando todos ajudamos, as coisas só podem correr bem. No jogo da passada jornada na Liga NOS, em casa frente ao Nacional, e após os dois primeiros golos da equipa forasteira, o fantasma de uma recaída ainda pairou sobre Alvalade, pois, como disse William S. Burroughs, no alto da sua sabedoria opiácea, "once a junkie, always a junkie". No entanto, os árbitros também são seres humanos e sabem ser solidários e ajudar. Além dos penáltis marcados a favor do Sporting, para reequilibrar o jogo (e colocar o clube como campeão europeu dos penáltis), o juiz da partida percebeu que os jogadores do Sporting precisavam de ser protegidos nesta fase ainda frágil da recuperação: os jogadores sportinguistas fizeram 26 faltas e tiveram três amarelos e os jogadores do Nacional fizeram nove faltas e tiveram também três amarelos. Continuem a ajudar quem precisa...

2 Hoje joga-se mais um jogo neste dezembro que parece ser uma provação homérica para o Braga. Até ao momento, a equipa tem passado com distinção nas provas. O último jogo, contra o Setúbal (para mim, o mais importante do mês, pois decidiu a continuação na Taça de Portugal), foi uma imensa luta. O mérito das equipas treinadas por Lito Vidigal não está propriamente em jogar um bom futebol, mas na capacidade que têm de fazer com que as equipas adversárias joguem mal. É uma técnica bem refinada e que resultou: o Braga não fez um jogo técnica e taticamente bem conseguido. Mas em luta, concentração e solidariedade sobrou talento. E este é um aspeto que tem de estar presente sempre numa equipa que se quer campeã. E se hoje formos também assim, as hipóteses de vencermos o Benfica ficarão maiores.